terça-feira, 16 de novembro de 2010

Re: Luz




Deixa. Nem quero mais. Besteira. A luz do meu quarto acesa não perturba a vizinhança de gatos e telhas. Lindo. Era lindo demais aquele despertar. Olho tremendo e o movimento dos cílios -meu Deus, que movimento de cílios!- e lábios murmurando "já?" e os meus acalentando . E tudo em volta se apagando quando o verde estourava em visão. Bem ali. Diante. Dos meus olhos. Meus olhos de um marrom ordinário que se misturavam com o verde raro dele, que imundiciavam o verde raro dele de pieguice e amor e aí nós virávamos alguma coisa de água correndo veloz pralguma sarjeta onde a gente nunca quer que nem o pior inimigo acorde numa manhã dessas. Entende? Eram movimentos simples que me provavam que alguma coisa de Luz existia.
Pálpebra - cílios - movimento dos cílios - movimento dos lábios... Olhos abertos:
Oi...
E eu me evaporei nesse oi e me evaporaria pra sempre mesmo que quisesse ter ficado e dito "bom dia" e feito café amor cama filho unha barba.
Mas é manha. A manhã violada por um sol impiedoso e eu vaporoso como gosto de ser nos adeuses. "Vai, viaja. Mas para outros lugares." E passam-se tempos e medos e dores tremendas, dores medonhas, até que eu me encontre em casa e repita que nem fosse mantra, mandinga: besteira. É pouca coisa, é coisa pequena. E do lado de fora telhas reluzem e chovem carcaças de lua sobre os gatos vagabundos que se orgulham de serem do mundo. E a luz do meu quarto acesa só perturba mesmo o meu sono tramado em tule: se rasga tão fácil que toda a vez que eu abro os olhos meus próprios olhos me parecem rasgados, e se Luz existisse ainda, é certo: doeria.

Imagem: A Dupla Vida de Véronique ( La double vie de Véronique )- Krzysztof Kieslowski, 1991.

2 comentários:

Uma Maria disse...

Texto lindo, meio triste.

beto,,, disse...

putz... como gostei muito muito mesmo.

a água correndo pela sarjeta. carcaças de lua. sono tramado em tule.