quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Véspera

É uma hora quieta, embora incerta, e é pela quietude que eu me sento à janela e começo a dobrar as coisas.
A camisa de amanhã, a carta de ontem, o estilete de hoje.
Desisto de usar azul porque o céu só está propício para cinza. Desisto de entregar palavras porque nenhuma palavra foi capaz de desdobrar um silêncio. Desisto do gume porque nele a lua brilhou e uma nuvem foi cortada.
Respirei fundo e decidi esperar mais um pouco. Dobrei uma besta só com meus joelhos. Ontem e hoje. Amanhã virá outra. Dobrei uma esquina sem outro par de pés para acompanhar os meus, e esqueci de gravar o caminho de volta.
Agora paciência.
Que as solidões e monstros não me vençam, e que os caminhos, embora desertos,
cresçam, cresçam, cresçam.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Angus


Não quero que ele venha.
Minha vontade é fechar os olhos como o boneco chamado Angus e olhar pra baixo assim, de olhos fechados, queixo quase tocando o ombro, quase lembrando de um beijo de ombro, inusitado e saudoso, quase saudoso de lábios. E levar a mão ao próprio rosto, como se fosse de outro e aprender esse nariz e essa boca as cavidades dos olhos como se fossem olhos de outro, e aprender também a sombra dos cílios sobre as maçãs, como se elas fossem maçãs merecedoras de toques e sombras de cílios tão delicados como estes, que já se molharam tanto, que uma vez ou outra foram pintados e que uma vez e outra já amaram de toque os cílios de outro.
Não sei se quero que ele venha.
Se me tiraria do meu estado côncavo para me enrijecer e levantar meu queixo. Ah, não. Meu ombro ficaria tão sozinho. Seria como arrancar um recém-nascido do colo da mãe. Uma escolha de Sofia. Mão dele, ombro meu: é tão difícil. Meus dedos cobrem a sombra dos meus cílios e já não é carinho. Comecei a vê-lo se aproximando no sol, aquele corredor todo acendendo luzes pra ele passar. Há tremor e há rugas novas nessa mão. Há vincos no lugar dos vícios abandonados. As unhas crescem de desejo e os olhos ainda fechados são o objeto.
Talvez ele possa vir se vier com a palavra certa.
Meu ouvido são está próximo do ombro endoidecido. Bastou um beijo pra que o ombro perdesse a razão e nunca mais quisesse nada, nem roupa, nem alça de bolsa, nem vento, nem água. O ouvido surdo está ao vácuo. Como vou ouvir se ele chamar? Talvez leve um susto, talvez tenha ficado surdo de tanto não acreditar que a voz falasse a mim. Além de surdo, pra sempre marcado por dentes impiedosos. Prazer de quase dilacerar um lóbulo. Nunca mais senti nada deste lado. Se alguém aproximar a boca, eu digo que é uma orelha envenenada. Os dedos avançam sobre os cílios.
Acho que quero que ele venha. Talvez precise.
Precisar é um querer maldito. Preciso do olho na minha mão agora. Vou ser como as parcas. Empresto o olho se alguém quiser ver como eu vejo. Aviso que não tem tanta coisa boa na visão dele. Mas tem tanta coisa que vc se perde olhando que às vezes dá até pra pensar que é boa. As unhas trabalham. São hábeis em desenterrar coisas, sempre foram. Cavam e cavam. São tão gentis que nem dói tanto. Aprenderam a ser. Quem não é bonito tem que ter toque gentil. Essa beleza de mirarem pra mim e acharem bom eu nunca tive. Mas sou estudioso dos toques. Um dia vou saber fazer devastações. Se não, ao menos servirão para as curas ou as maldições.
Eu quero que ele venha.
Pode chamar de crueldade, não há mais lugar para as considerações óbvias. Mas te digo, é bem mais do que isso. Cuidado com o maniqueísmo. Minhas mãos têm personalidade difícil e quando sentem saudades, demonstram. Procuram e procuram. Percorrem mundos de corpos em valas comuns à procura do morto querido. Querem dizer a ele, ainda que morto, ainda que surdo: sentimos tua falta. Se não encontram, ficam com raiva. Já descontaram em mim, mas não confunda: agora é carinho. Se ele vier chamando naquele corredor que se ilumina ao passo dele, eu já não verei mais luz alguma se acendendo. Mantenho no ombro o meu ouvido são, pra não escutar nenhum movimento dele se aproximando. A mão já calma estende um olho castanho, surpreendido no olhar mais singelo, como se fosse uma fruta colhida no momento certo. Amadurecimento e decomposição. É preciso valorizar o ápice de todas as coisas que morrem. Toma o meu olho, e olha bem dentro dele enquanto ele ainda te olha.
Ficou um cílio no meu ombro. O Acaso é providencial. Vou fazer um pedido, penso, e com toda a força o faço.

Imagem: Angus- óleo sobre tela, 2010.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Nunca Mais Dormi Direito

A primeira culpa eu senti mesmo foi quando matei a galinha Pipica afogada num balde d'água com sabão. Era inverno no Rio Grande do Sul, fazia 1 grau, algo assim, e eu tinha 5 anos, ou 6, algo assim, e só sei afirmar que não foi um crime premeditado, mas foi meu primeiro crime. A galinha era de estimação, era da minha irmã, criada como se fosse cachorro; dormia em cesta, tinha coberta pro frio, a gente fazia bolo de barro com milho pra ela comer no aniversário dela. Naqueles tempos eu tinha a cabeça raspada por causa dos piolhos e andara escutando na cozinha alguém comentar que galinha era um bicho que também tinha piolho. Como não saberia raspar os cabelos da galinha, decidi que um banho resolveria o problema dela e sem saber preparei seu assassinato. A água estava gelada a ponto de doer os dedos. Coloquei bastante sabão em pó, que era pra ela ficar bem perfumada. Quando minha mãe chegou do trabalho, eu disse que a galinha tinha gostado tanto do banho que estava dormindo na água havia horas. O que veio a seguir foi o desconsolo da minha irmã e a minha incredulidade diante de coisas que eles chamavam consequências. Ninguém me mandou sentir culpa. Foi algo assim, que tinha o gosto dum bolo de barro com milho cru descendo pela garganta e se alojando pesado dentro do estômago.

Tempos depois quebrei um lustre tentando me pendurar nele com um guarda-chuva. Minha irmã, um pouco mais altruísta que as irmãs em geral, assumiu a autoria do crime. Naquela noite eu não dormi. O sentimento de culpa durava mais do que os efeitos de qualquer represália. Mas tampouco tentei reverter a situação. Conheci algo ainda pior que a culpa, uma coisa que eles chamavam covardia. Nunca mais dormi direito.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Générique de Fin

Foi quando comecei a ouvir o Générique de Fin. Que vontade de chorar que me deu, e, logo a gente, que é forte, se diz forte, tenta ser forte, se fortalece com tanta coisa árdua num dia. Pra chegar em casa e querer desabar com Preisner, ou agarrar-se a uma fotografia de Camille Claudel e desejar voltar no tempo para interceder por ela junto a Deus ou qualquer coisa que o valha. Quanta tolice, quanta palavra que não se usa nessa minha cabeça, quanto som que não se escuta. Eles não escutam porque sabem que faz mal, sabem que quem não tampa os ouvidos e ainda ousa! gostar de uma sonoridade de morte é lançado de braços abertos para uma pedra fria dentro do escuro. E dizer "quero ser simples" agora adianta? Agora que eu tomei uma via -leiam bem, uma via. Como retomar tudo o que não me diz respeito porque eu jamais quis que dissesse alguma coisa de mim? Vem um choro comovido, completamente ridículo, completamente deslocado do ano de 2010, da cidade de Brasília e da minha casa sem pintura. Os sentimentos todos arrefecidos, encurvados como uma moça antiga sobre um piano ou um tocador ou um colo de amante.

Eu, que sou forte, me sei forte, me quero fortalecido, nessas horas deságuo como se tivessem de mim apenas a funcionalidade de um vaso: serventia de aplacar as sedes; depois, um destino de louça em escuridões de armários. Pretensões tantas, por que me deram? Ou me dei à mim mesmo um olhar de vaca, estirado sobre a paisagem, ciente do futuro de si e das outras vacas. A intuição do abate. Um reluzir de lâmina antes do sangue, jorrando em cubas muito sujas.

Preisner ao fundo. Todo o drama da liberdade está liberto dos enunciados e das teses. Quis uma vez adentrar o árduo do cotidiano e poder cheirar no humano as mortes limpas que levam consigo. Foram raras. Dentro das figuras honradas há um humilhar-se eterno em posição fetal junto a cantos e insignificâncias. Dentro dos chamamentos de abraço, um espírito em posição de ave de rapina à espera. À espreita, à beira. Rondando as vidas alheias disfarçam caminhos próprios e conquistas próprias e escarram favores no lugar de auxílios e beijos. Sempre esguios e ágeis, sempre equilibristas na corda bamba que une uma maldade bem-disfarçada de benefício e um benefício ineficaz. Nós damos um jeito. Queria dar um jeito, acordar e lavar a cara e com a sujeira dos poros levar embora bem lavado o verniz de visionário. Ir ser lutador corajoso lá fora, de armadura de linho e algodão, de sapatos italianos, de posicionamento político, fiel à marcas, cidadão, praticante de religião, destaque acadêmico, consumidor de cultura, leitor de notícias, filantropo, quem sabe.

Mas não. Por mais que eu me arme e me invista de elmo e couraça, é a própria manhã que me violenta das formas mais insuspeitas e me deixa cada vez mais vencido para o proselitismo dos bem-aventurados e para a pieguice das rotinas bem-vividas. Uma certa luz contrastante à matéria grosseira torna a própria matéria invisível e o que está fora do tempo e do espaço assoma em relevância. Isso aconteceu hoje, quando cheguei em casa e a manhã acendia a um desfecho inevitável de autoimolação. O sol do meio dia engoliu a vida, ao som de Preisner. Eu pretendia me redimir de divagações e pretextos de sonhador. Queria encarar de frente a simplicidade das tarefas e das responsabilidades, do dinheiro ganho e do dinheiro gasto, do amor conquistado através de tanta, tanta, tanta coisa alheia ao próprio amor.

Não é pra mim. A manhã suicida me lembra de ressurreições e a nostalgia de uma luz quase onírica das nove horas me remete a alguns lugares que nunca existiram. Amanhece de novo e de novo a noite engole o dia e regurgita. Preisner me desvia do caminho que eu ia tomar e que não era meu, mas ainda tenho inveja dos que não tomaram conhecimento da própria infelicidade. Camille Claudel aguarda entre uma carta e outra no interior de um pátio em Villeneuve-lès-Avignon. Pousa para uma fotografia com um olhar estirado de vaca. Sessenta e sete anos se passam e ainda assim aquele exato segundo persiste. Mas isso não me diz respeito, repito todos os dias, porque preciso situar-me em meu tempo e suas pequenezas grandiosas. Perdidas na poeira da História estão as pequenezas de Villeneuve-lès-Avignon. É necessário agora fixar mente e corpo nestas coisas contemporâneas. Preciso tentar mais uma vez. E outra. E outra.

Começo agora...

Mas há tempo. Meu pensamento embaça e retoma cores de uns lugares que nunca existiram. Antes que eu eu queira, também eu me perco na poeira e reclino a cabeça para sentir a música. Melhor deixar para outro dia.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Do Conteúdo de Um Vaso Canopo

Centopéias avançam: mesma trilha, um brilho acobreado fosco sobre as costas. Os cascos  são meses/séculos de fragilidades protegendo ramificações de pequenas vísceras. Entrelaçadas, ganham viço. Porque elas se agrupam e formam estampas, as paredes aos poucos vão se tornando bronze.  Que cheiro de sangue, disse L. O outro disse: é cheiro de dentro. E se juntaram à uma fremência de uns bichos anguiliformes e uns tantos outros anelídeos. Unidos, tínhamos a mesma importância: vermes se contorcendo no buraco da minha cabeça aberta. Aqueles que ainda não foram partidos ao meio olhariam pra dentro tão maravilhados que, nesse assombro, diriam: é sensacional, e, logo mais: não entendo nada. E eu, muito calmo, responderia: é horrendo, compreendo tudo.