terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Angus


Não quero que ele venha.
Minha vontade é fechar os olhos como o boneco chamado Angus e olhar pra baixo assim, de olhos fechados, queixo quase tocando o ombro, quase lembrando de um beijo de ombro, inusitado e saudoso, quase saudoso de lábios. E levar a mão ao próprio rosto, como se fosse de outro e aprender esse nariz e essa boca as cavidades dos olhos como se fossem olhos de outro, e aprender também a sombra dos cílios sobre as maçãs, como se elas fossem maçãs merecedoras de toques e sombras de cílios tão delicados como estes, que já se molharam tanto, que uma vez ou outra foram pintados e que uma vez e outra já amaram de toque os cílios de outro.
Não sei se quero que ele venha.
Se me tiraria do meu estado côncavo para me enrijecer e levantar meu queixo. Ah, não. Meu ombro ficaria tão sozinho. Seria como arrancar um recém-nascido do colo da mãe. Uma escolha de Sofia. Mão dele, ombro meu: é tão difícil. Meus dedos cobrem a sombra dos meus cílios e já não é carinho. Comecei a vê-lo se aproximando no sol, aquele corredor todo acendendo luzes pra ele passar. Há tremor e há rugas novas nessa mão. Há vincos no lugar dos vícios abandonados. As unhas crescem de desejo e os olhos ainda fechados são o objeto.
Talvez ele possa vir se vier com a palavra certa.
Meu ouvido são está próximo do ombro endoidecido. Bastou um beijo pra que o ombro perdesse a razão e nunca mais quisesse nada, nem roupa, nem alça de bolsa, nem vento, nem água. O ouvido surdo está ao vácuo. Como vou ouvir se ele chamar? Talvez leve um susto, talvez tenha ficado surdo de tanto não acreditar que a voz falasse a mim. Além de surdo, pra sempre marcado por dentes impiedosos. Prazer de quase dilacerar um lóbulo. Nunca mais senti nada deste lado. Se alguém aproximar a boca, eu digo que é uma orelha envenenada. Os dedos avançam sobre os cílios.
Acho que quero que ele venha. Talvez precise.
Precisar é um querer maldito. Preciso do olho na minha mão agora. Vou ser como as parcas. Empresto o olho se alguém quiser ver como eu vejo. Aviso que não tem tanta coisa boa na visão dele. Mas tem tanta coisa que vc se perde olhando que às vezes dá até pra pensar que é boa. As unhas trabalham. São hábeis em desenterrar coisas, sempre foram. Cavam e cavam. São tão gentis que nem dói tanto. Aprenderam a ser. Quem não é bonito tem que ter toque gentil. Essa beleza de mirarem pra mim e acharem bom eu nunca tive. Mas sou estudioso dos toques. Um dia vou saber fazer devastações. Se não, ao menos servirão para as curas ou as maldições.
Eu quero que ele venha.
Pode chamar de crueldade, não há mais lugar para as considerações óbvias. Mas te digo, é bem mais do que isso. Cuidado com o maniqueísmo. Minhas mãos têm personalidade difícil e quando sentem saudades, demonstram. Procuram e procuram. Percorrem mundos de corpos em valas comuns à procura do morto querido. Querem dizer a ele, ainda que morto, ainda que surdo: sentimos tua falta. Se não encontram, ficam com raiva. Já descontaram em mim, mas não confunda: agora é carinho. Se ele vier chamando naquele corredor que se ilumina ao passo dele, eu já não verei mais luz alguma se acendendo. Mantenho no ombro o meu ouvido são, pra não escutar nenhum movimento dele se aproximando. A mão já calma estende um olho castanho, surpreendido no olhar mais singelo, como se fosse uma fruta colhida no momento certo. Amadurecimento e decomposição. É preciso valorizar o ápice de todas as coisas que morrem. Toma o meu olho, e olha bem dentro dele enquanto ele ainda te olha.
Ficou um cílio no meu ombro. O Acaso é providencial. Vou fazer um pedido, penso, e com toda a força o faço.

Imagem: Angus- óleo sobre tela, 2010.

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