quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Générique de Fin

Foi quando comecei a ouvir o Générique de Fin. Que vontade de chorar que me deu, e, logo a gente, que é forte, se diz forte, tenta ser forte, se fortalece com tanta coisa árdua num dia. Pra chegar em casa e querer desabar com Preisner, ou agarrar-se a uma fotografia de Camille Claudel e desejar voltar no tempo para interceder por ela junto a Deus ou qualquer coisa que o valha. Quanta tolice, quanta palavra que não se usa nessa minha cabeça, quanto som que não se escuta. Eles não escutam porque sabem que faz mal, sabem que quem não tampa os ouvidos e ainda ousa! gostar de uma sonoridade de morte é lançado de braços abertos para uma pedra fria dentro do escuro. E dizer "quero ser simples" agora adianta? Agora que eu tomei uma via -leiam bem, uma via. Como retomar tudo o que não me diz respeito porque eu jamais quis que dissesse alguma coisa de mim? Vem um choro comovido, completamente ridículo, completamente deslocado do ano de 2010, da cidade de Brasília e da minha casa sem pintura. Os sentimentos todos arrefecidos, encurvados como uma moça antiga sobre um piano ou um tocador ou um colo de amante.

Eu, que sou forte, me sei forte, me quero fortalecido, nessas horas deságuo como se tivessem de mim apenas a funcionalidade de um vaso: serventia de aplacar as sedes; depois, um destino de louça em escuridões de armários. Pretensões tantas, por que me deram? Ou me dei à mim mesmo um olhar de vaca, estirado sobre a paisagem, ciente do futuro de si e das outras vacas. A intuição do abate. Um reluzir de lâmina antes do sangue, jorrando em cubas muito sujas.

Preisner ao fundo. Todo o drama da liberdade está liberto dos enunciados e das teses. Quis uma vez adentrar o árduo do cotidiano e poder cheirar no humano as mortes limpas que levam consigo. Foram raras. Dentro das figuras honradas há um humilhar-se eterno em posição fetal junto a cantos e insignificâncias. Dentro dos chamamentos de abraço, um espírito em posição de ave de rapina à espera. À espreita, à beira. Rondando as vidas alheias disfarçam caminhos próprios e conquistas próprias e escarram favores no lugar de auxílios e beijos. Sempre esguios e ágeis, sempre equilibristas na corda bamba que une uma maldade bem-disfarçada de benefício e um benefício ineficaz. Nós damos um jeito. Queria dar um jeito, acordar e lavar a cara e com a sujeira dos poros levar embora bem lavado o verniz de visionário. Ir ser lutador corajoso lá fora, de armadura de linho e algodão, de sapatos italianos, de posicionamento político, fiel à marcas, cidadão, praticante de religião, destaque acadêmico, consumidor de cultura, leitor de notícias, filantropo, quem sabe.

Mas não. Por mais que eu me arme e me invista de elmo e couraça, é a própria manhã que me violenta das formas mais insuspeitas e me deixa cada vez mais vencido para o proselitismo dos bem-aventurados e para a pieguice das rotinas bem-vividas. Uma certa luz contrastante à matéria grosseira torna a própria matéria invisível e o que está fora do tempo e do espaço assoma em relevância. Isso aconteceu hoje, quando cheguei em casa e a manhã acendia a um desfecho inevitável de autoimolação. O sol do meio dia engoliu a vida, ao som de Preisner. Eu pretendia me redimir de divagações e pretextos de sonhador. Queria encarar de frente a simplicidade das tarefas e das responsabilidades, do dinheiro ganho e do dinheiro gasto, do amor conquistado através de tanta, tanta, tanta coisa alheia ao próprio amor.

Não é pra mim. A manhã suicida me lembra de ressurreições e a nostalgia de uma luz quase onírica das nove horas me remete a alguns lugares que nunca existiram. Amanhece de novo e de novo a noite engole o dia e regurgita. Preisner me desvia do caminho que eu ia tomar e que não era meu, mas ainda tenho inveja dos que não tomaram conhecimento da própria infelicidade. Camille Claudel aguarda entre uma carta e outra no interior de um pátio em Villeneuve-lès-Avignon. Pousa para uma fotografia com um olhar estirado de vaca. Sessenta e sete anos se passam e ainda assim aquele exato segundo persiste. Mas isso não me diz respeito, repito todos os dias, porque preciso situar-me em meu tempo e suas pequenezas grandiosas. Perdidas na poeira da História estão as pequenezas de Villeneuve-lès-Avignon. É necessário agora fixar mente e corpo nestas coisas contemporâneas. Preciso tentar mais uma vez. E outra. E outra.

Começo agora...

Mas há tempo. Meu pensamento embaça e retoma cores de uns lugares que nunca existiram. Antes que eu eu queira, também eu me perco na poeira e reclino a cabeça para sentir a música. Melhor deixar para outro dia.

Um comentário:

Raíssa Abreu disse...

Descobri nas páginas do "Jogo da Amarelinha" esse mesmo sentimento de recusa à formatação dos dias:

"Acordei e vi a luz do amanhecer pelas frestas da persiana. Saía tão de dentro da noite que tive como um vômito de mim mesmo, o espanto de entrar num novo dia com sua mesma apresentação, com sua indiferença mecânica de sempre: consciência, sensação de luz, abrir os olhos, persiana, a madrugada.
Nesse segundo, com a onisciência do semi-sonho, medi o horror daquilo que tanto encanta e maravilha as religiões: a perfeição eterna do cosmos, a rotação incessante do globo sobre o seu eixo. Náusea, sensação insuportável de coação. Sou obrigado a tolerar que o sol saia todos os dias. É monstruoso. Não é humano.
Antes de voltar a adormecer, imaginei (vi) um universo plástico, mutante, cheio de maravilhosos acasos, um céu elástico, um sol que inesperadamente falta, ou fica imóvel, ou muda de forma.
Ansiei pela dispersão das duras e inflexíveis constelações, essa suja propaganda luminosa do Truste Divino Relojoeiro".