sábado, 18 de dezembro de 2010

Nunca Mais Dormi Direito

A primeira culpa eu senti mesmo foi quando matei a galinha Pipica afogada num balde d'água com sabão. Era inverno no Rio Grande do Sul, fazia 1 grau, algo assim, e eu tinha 5 anos, ou 6, algo assim, e só sei afirmar que não foi um crime premeditado, mas foi meu primeiro crime. A galinha era de estimação, era da minha irmã, criada como se fosse cachorro; dormia em cesta, tinha coberta pro frio, a gente fazia bolo de barro com milho pra ela comer no aniversário dela. Naqueles tempos eu tinha a cabeça raspada por causa dos piolhos e andara escutando na cozinha alguém comentar que galinha era um bicho que também tinha piolho. Como não saberia raspar os cabelos da galinha, decidi que um banho resolveria o problema dela e sem saber preparei seu assassinato. A água estava gelada a ponto de doer os dedos. Coloquei bastante sabão em pó, que era pra ela ficar bem perfumada. Quando minha mãe chegou do trabalho, eu disse que a galinha tinha gostado tanto do banho que estava dormindo na água havia horas. O que veio a seguir foi o desconsolo da minha irmã e a minha incredulidade diante de coisas que eles chamavam consequências. Ninguém me mandou sentir culpa. Foi algo assim, que tinha o gosto dum bolo de barro com milho cru descendo pela garganta e se alojando pesado dentro do estômago.

Tempos depois quebrei um lustre tentando me pendurar nele com um guarda-chuva. Minha irmã, um pouco mais altruísta que as irmãs em geral, assumiu a autoria do crime. Naquela noite eu não dormi. O sentimento de culpa durava mais do que os efeitos de qualquer represália. Mas tampouco tentei reverter a situação. Conheci algo ainda pior que a culpa, uma coisa que eles chamavam covardia. Nunca mais dormi direito.

3 comentários:

Maurício Campos disse...

contos de infância (inventados ou não), meu calcanhar de Aquiles.
Gosto quando os contos misturam o nosso contar de hoje com o contar de menino, não se sabe quem fala.
Abraço

iza disse...

nossa inocência era tão pura que cria um nó na garganta, vontade de chorar. eu estava pensando nisso hoje, em como as crianças riem, choram, criam um mundo tão sem maldade e de repente crescer não tem graça alguma.
sobre covardia, você narrou muito bem a sensação de mau caráter (mesmo sem intenção) aparecendo. ah, depois percebemos que dá pra relaxar, afinal, todos temos maldade e rancor dentro de nós, mas é bela bondade que vale a pena viver. é o que me faz conseguir botar a cabeça no travesseiro toda noite.

iza.

Raíssa Abreu disse...

Coitada da Fabi (rs...)