quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Véspera

É uma hora quieta, embora incerta, e é pela quietude que eu me sento à janela e começo a dobrar as coisas.
A camisa de amanhã, a carta de ontem, o estilete de hoje.
Desisto de usar azul porque o céu só está propício para cinza. Desisto de entregar palavras porque nenhuma palavra foi capaz de desdobrar um silêncio. Desisto do gume porque nele a lua brilhou e uma nuvem foi cortada.
Respirei fundo e decidi esperar mais um pouco. Dobrei uma besta só com meus joelhos. Ontem e hoje. Amanhã virá outra. Dobrei uma esquina sem outro par de pés para acompanhar os meus, e esqueci de gravar o caminho de volta.
Agora paciência.
Que as solidões e monstros não me vençam, e que os caminhos, embora desertos,
cresçam, cresçam, cresçam.

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