domingo, 4 de dezembro de 2011

Pretextos Para Imagens Internas


Em todos os poemas a recorrência é um princípio cardeal. O metro e seus acentos, a rima, os epítetos em Homero e outros poetas, as frases e incidentes que se repetem como motivos e temas musicais são como signos ou marcas que enfatizam a continuidade. No outro extremo estão as rupturas, as mudanças, as invenções e, no fim, o inesperado: o campo da surpresa. O que chamamos de desenvolvimento nada mais é do que a aliança entre surpresa e recorrência, invenção e repetição, ruptura e continuidade.

Octavio Paz


















Imagens produzidas durante o ano de 2011, para a série Pretextos Para Imagens Internas.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Imo

Para P.


E foi que me doíam aquelas felicidades estranhas que, uma vez conquistadas tratam de hastear uma flâmula de incerteza e receio por cada território onde vicejam e fazem graça. Tal qual um rapsodo que passa pela cidade e ilumina um lugar e seu povo antes de partir para outro. E se ele retorna, depois que passa, as luzes das casas tilintam de novo com o mesmo frêmito de um primeiro poema?

De presenças, só sei saudades. Mesmo quando ele recita e o lume do verso me chispa o rosto na noite escura, é de saudades que me silencio e me abrevio. O depois engole a voz e com as cordas da voz o depois me enforca; o depois engole a casa e as luzes da casa o depois apaga. E atinge então a encosta, e a estrada. De perenidades, estradas.

Mas não se cala o verso a mim consagrado. Há que se memorizar cada letra, cada traço de voz que me risca o ouvido e me forma em sentido. Juntei-me de sentidos, quando ele veio. Cacos tantos, de incoerências fartas. Rapsodo do depois, me fica nas veias até seu emudecer e seu próximo passo para além da cidade. E a cidade volta a desconhecer luz e o verbo tilintar então só serve para copos e colheres alanhando rotina e vaziez.

Ele canta epopeias, eu relembro causos. Ele ressignifica meus sentidos e eu rezo permanência e exaurimento. Que se canse de vislumbrar cidades além da cidade onde seus pés raízam. Firmes, raízem, eu rezo. E me permito estranhezas de felicidades, temerosas alegrias, medos descompassados de fenecimento quando a sombra da mó assoma sobre trigos e joios.

O tempo me arranha os dentes e os ossos, e os versos prosseguem tanto quanto nos esquecemos da estrada e das outras cidades além da estrada. Tranquilidade só mesmo se eu fosse uma ilha. Vim a ser ilharga que o remanso ataca com gentileza e tepidez, pois é de ardil e de chasco a natureza das enseadas.

E me mantenho pétreo durante o dia; vítreo ao longo da noite. Erigido sobre uma canção da qual ninguém na cidade recorda direito: um navio naufragado que só relata suas travessias antigas a corais e cardumes. Crepuscular então, quando vitral perpassado pela voz de um bardo.

A noite dissipa as luzes quando dormimos. Eu me dispo de desconfianças e amuos, porque me acostumo até quando o canto está suspenso. (ressoa)

E foi que me doíam de propósito todas as coisas a que o tempo arrancava cores e cascas. Primeiro, em fuga precipitada. Agora, em consciência esperançosa. Destas a que o próprio bom senso se encarrega de fazer troça, mas que são resistentes a descrenças e gargalhadas.

O dia nos vira as costas e nos viramos na cama, um para o outro, norte e norte, leste de bruma amanhecendo vicissitudes e viscos. Ressoa, rapsódia inconstante e custosa: a volatilidade assombrada de certas coisas douradas, que ao golpe mais frágil deixam escapar tonalidades invisíveis desse mesmo ouro, em vibrações metálicas. Sinos que dobram em som, mas jamais em forma. Auras cuja volição secreta é o escuro, irrealizável e ainda mais leve. Ressonar que tremula não porque hesita, mas porque fulgura. Obstinação e permanência sobre os nossos ombros. Fica e trabalha. Depois da lida, o canto de ontem ilumina a casa, e os versos povoam o descanso compartilhado entre coseduras e desfiamentos de um impossível sudário.

Imagem: Sem Título- pastel seco sobre cartão- 2009- Léo Tavares

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Intervenção Cirúrgica

Quantas voltas, quantas dobras de nada
Até desvendarmos no silêncio ruidoso
A carne da palavra
A tinta- excremento lírico
Dá lugar à agulha,
Cirurgia de risco na pele do poema.
Costuro versos,
Sem garantia de salvamento.
Uns sangram e se esvaem
Outros estancam.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 7: Outono



se um relógio é uma metáfora de tempo,
meu sopro sobre teus olhos é metáfora de vento.
faltam vinte e sete horas para o teu outono.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Passeio

Ando contigo pela rua, mãos dadas, sincronia de passos e de pássaros ao largo da avenida mais movimentada da cidade. Uns se horrorizam, sussurram, mas não viram a cara. Gostam de ver até aonde vai a nossa audácia. Outros nos querem mortos, mas uns tantos pensam “que bonito” e a gente lê isso de soslaio, mas é o sol nos teus cabelos e o calor na tua mão que me impedem de prender visão em qualquer reflexo alheio. A esses pensamentos, nem agradeço, nem me aqueço por dentro. Não precisa. Aprecio a vista e quando passam, te aperto mais os dedos, como se quisesse transmutar a tua mão na minha. Se tenho orgulho dos meus pertencimentos, não é porque quero esfregar amor bom na cara da humanidade. Faço o mesmo diante de cães e árvores.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Лайка, Kudryavka

Eu queria que todo mundo fosse pro espaço, e nunca mais voltasse. 
Ninguém caindo de paraquedas coloridos sobre Santiago do Chile.
Ninguém pintado de iodo, pra colocar sensores de frequência cardíaca.
Nenhuma história sobre corpos celestes. Só silêncio.
Apenas decolagem, 2.570 órbitas em volta da Terra, depois fim.
Eu queria que todo mundo tivesse ido pro espaço. Menos ela.
Eu subiria bem alto pra olhar o céu. Um assovio pralém da lua, e ela viria correndo,
Radioativa, alada, com seu capacete de astronauta.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 5: Estação/Espectros




(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 4: Isto é Quem Fomos:






Ele levava a gente pra tomar banho de rio.
Eu dormia enrolando o dedo no cabelo dela.
Uma vez Fabiana e eu aprendemos a andar de bicicleta.
Noutra vez apontamos o dedo pruma estrela e não nasceu verruga.
Quando nos deixaram sozinhos em casa escrevemos coisas em todas as paredes.

Estávamos aprendendo.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 1: VerbAges


Em todos os poemas a recorrência é um princípio cardeal. O metro e seus acentos, 
a rima, os epítetos em Homero e outros poetas, as frases e incidentes que se 
repetem como motivos e temas musicais são como signos ou marcas que enfatizam 
a continuidade. No outro extremo estão as rupturas, as mudanças, as invenções e, 
no fim, o inesperado: o campo da surpresa. O que chamamos de desenvolvimento 
nada mais é do que a aliança entre surpresa e recorrência, invenção e repetição, ruptura e continuidade. 

Octavio Paz



Imagem: VerbAges - fotos 3x4 com capas, costura sobre caderno, 2011.

(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 2: Bilhete Urgente







Me salva no dia sete de setembro de 1984, ao meio dia e dez em ponto, naquele prédio grande que tem uma cúpula, e uma santa na cúpula com aquele menino no colo. Está tudo pintado de bege e eu acho muito triste.  A construção deve ter dois séculos e é de uma beleza cemiteriana. Ando tão aflito que me ponho a inventar palavras. Fizeram estranhas e altas, as janelas. O sol não entra o dia todo e os corredores têm o cheiro do suor doente dos velhos. Vem logo, que a viagem é longa e eu tenho medo.  Num hospital não quero. Não nesse, já disse, mortificado, pintado de bege. Apressa. 

PS: Depois passaremos a tarde assombrando os pássaros à beira do rio. Eles voarão sobre os casais que não nos podem ver. Riremos muito quando os vestidos das moças se alvoroçarem e elas não souberem por quê. De noite eu te beijo e te abraço dentro da água, lá no fundo, quarenta metros abaixo. Jamais ficaremos roxos como estes estranhos nas gavetas do hospital. O fundo do rio é morno, e os peixes atravessam nossos corações o tempo todo. Estamos tão mortos que não sentimos nada.

terça-feira, 10 de maio de 2011

(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 1: Prelúdios



Prelúdios

Agora começa. Ou começou bem antes, não sei. Só sei que veio como uma urgência que não é bem de voracidade ou expurgação. Estou prestes a devolver ao verbo, com a intensidade máxima que o meu desejo e amor permitam, o que o verbo tem me oferecido. Para tanto, é preciso voltar aos tempos já enevoados dos primeiros anos, aos lugares que desbotaram na memória como as fotografias que minha mãe ainda guarda nos álbuns de família. Mas eu dizia das urgências, desse começo onde me proponho a rondar o verbo e encontrar maneiras de me aproximar/apropriar dele, envolvê-lo, lambê-lo com uma língua suficientemente úmida e cálida, e às vezes àspera e cortante, para que ele se amolde a esse vir-a-ser que é para mim o melhor da arte. Sempre depois do olhar, é o que interessa. Sempre depois de ler. É o que se rumina num banquete de palavras ou sons ou imagens, é o que se vomita, é o que se adoece, é o que se engravida que me interessa.

Ainda não sei se vou conseguir, e isto me aflige. Já disse: não é expurgação. Preciso falar da minha relação com as palavras: já pratiquei exorcismos pela urgência em vomitar toda vez que um bolo de palavras me revoltava o estômago e me sufocava a garganta. Parecia-me sensato libertar-me do verbo quando ele crescia em tal medida até não me caber mais. Até me sair pelos buracos como as avencas do conto de Caio F. Em certas vezes, expelir esses filhos era exatamente dar à luz, recuperar-se do parto, preparar-se para a próxima gestação, cuidar dos que já tinham nascido, saber que um dia eu morreria, e melhor que fosse antes deles. Mas em outras, tantas outras, cometi abortos premeditados. Os natimortos não foram dados à luz, é fato: mas ao escuro, e é como se tivesse dado ao escuro uma seiva, que eu aguardo seu desenvolvimento atrofiado; anomalias congênitas das mais diversas se instaurando, até o momento -que há de chegar, eu sei- em que eles voltarão para mim, e, mortos-vivos, aleijados e feios, reclamarão descendência. Tal qual Equidna, que, na mitologia grega, por sua sina de habitar profundezas, foi a mãe de todos os monstros, deu ao escuro, e não à luz, a Hydra de Lerna, cujas cabeças, se decepadas, regeneravam-se em duas. Eu mesmo já cometi o erro de iniciar este tipo de luta vã, e ao ceifar umas tantas cabeças de monstro, dei vida a tantas outras. Elas me perseguem agora, agora que já não cometo infanticídio de palavra alguma, e aceitei a sina.

Urgência. Não sei bem quando se iniciou o processo, mas sei que me veio místico, como um desejo que é quase o de redenção: ofertar, cultuar, adorar o deus do verbo. Prestar um tributo que se constitua em lançar filhos híbridos para o sacrifício. Para tanto, este diário faz as vezes de pedra ritual. Se a palavra me trouxe alívio e dor na mesma medida, é na mesma medida que pretendo devolver a um universo de profundezas, aquele do Outro que lê e vê, e também aquele metafísico, que não se encerra em nenhuma grade de alma ou de matéria, peso e leveza, tranquilidade e torpor.

Iniciei dizendo que se faz urgente a criação. Uma cosmogonia estranha começa agora, e são as estranhezas que persigo, nestes meus (pre) textos para imagens (in) ternas. É preciso, antes de tudo, retroceder, ir colher no tempo uma história, arrancar pelas raízes certas imagens, pelos cabelos umas tantas, enfiar um gancho firme no plexo de outras, e trazê-las à tona, pela mão da palavra.

As primeiras foram arrancadas como corais há séculos grudados no casco de um navio naufragado. Eu ainda não era eu e já existia no mundo. Aquela criança me volta em decomposição. Deito a criança sobre a pedra ritual. As urnas canópicas estão prontas. Vinho de tâmara, cristais de sal, linho. Incensos, óleos de mirra e nardo. E uma estátua para abrigar o ka. Corto, abro, mutilo e costuro a criança. Preparo a eternidade dela. A partir de agora.

Imagem: (Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas, Prelúdios; páginas 13 e 14- Léo Tavares

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Indigesto Irrecusável

Estremeço porque é o fruto de hoje que me apodrece dentro.
Leva tempo, eu sei, para que essas coisas ruminantes
Encontrem decomposição e fenecimento.
Mas seria mais fácil olhar o alimento
Com um olho interno que me dissesse:
Vai, recusa.
É doce, mas é desuso querê-lo.
Há vômitos à espreita.
Há dores lancinantes
A impedir o sono da semana que vem
A proclamar o trauma da próxima década
E a cavar as rugas a serem irrigadas com uma
Ou outra lágrima mal-quista.
Mas nunca quis ser faquir de amores
Ou desejos.
Ainda que os risos me rasguem a garganta
E me façam cair os dentes
Vou ser fremente em alegria agônica
Vou entupir as artérias
Dessa gordura nociva da vida.
Me escorrem da boca veneno e sumo
Eu ressorvo na noite, em largos goles, esperança
E os abandonos, em densos tragos, eu fumo.

terça-feira, 29 de março de 2011

Os Outros Se Apagaram No Meio Da Noite



Os outros me apagam no meio da noite, antes do fim. Vejo séquitos de esperas e abandonos transitando pelas esferas do meu quarto, e de aguardo em aguardo, baixo a guarda, olhar grave sobre as poltronas vazias onde horas antes havia colo e proteção. Mas tu. Tu não. Meu olhar se avizinha com o teu mesmo de longe, quando te vejo descendo a rua para fora de mim, e me pergunto quando de novo, e me pergunto se forte, e aonde, se posso ser em descaminho, que é sempre essa ida de volta, sozinho, para a casa minha. Se posso ser qualquer coisa distante dessas bordas; beiras de esquecimento por onde circulo sonâmbulo, onde alimento medos e desproporções. Mas não. Desta vez retorno para meus cantos e miudezas queridas, encerrado em mim mesmo como se fosse um abraço, e ainda assim, és tu. És tu quem me abraça. Me envolvo os ombros de presença, mesmo quando não existem nem rastros físicos daquele corpo. A memória de cheiros e toques e palavras gravadas como com goivas e gozos. Raivas que se emudecem e depois de bem tragadas se desintegram em fumaça rumo às janelas abertas. E eu virei aquele das janelas. Transmutação, não. Movimento. Força de impulsionar o corpo para frente, mas proteção de parapeito toda a vez que me apertas contra o peito e eu me aproximo de um abismo que nunca é de cair, mas de planar. Das janelas, me lanço. Quintessência viajando pela noite até a janela do teu quarto. Qualquer fresta, eu entro. Qualquer coisa bem trancada. Não existe nenhuma chave-tetra que me deixe do lado de fora, na noite aberta –a não ser a tua palavra, dolorosa e discreta, quando me afastas e vou para casa e conto as horas e conto quantas músicas de Blossom Dearie me faltam para ser resto de parafina. Meia-luz, meio aflito, mas o coração no meio-dia, que é quando mudo o humor e meço o descabimento de não ser feliz e estar sendo. E te vejo.

Imagem: Happy Together, 1997- Wong Kar-Wai

sábado, 26 de março de 2011

Golden Shower

O calor que vinha dele era eletricidade. Felicidade em neon, descargas correndo em velocidade inimaginável dentro dos fios-veias que ele usava no pescoço. Parecia a corda de um suicida envolvendo as amígdalas. Parecia que ele brilhava e gozava até dar pane. Ela olhava de longe, maravilhada. Quando mijou em cima dele o curto-circuito foi seu ápice. Os olhos sem cor estavam revirados para trás e ela sentia que só ela sabia de que cor eles tinham sido. 

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Memória Gesta

Acordou como quem não sabe a casa.
Eram poucos os cômodos.
Mas claros.
Tateou na luz para poder enxergar
O que tinham de escuro.
Nada.
E assim,
Aquela vida avançou ferida
Para fora do quarto que lhe cortara.
Aos poucos os pontos se fecharam
Porque sim, eles costuraram
Com o que tinham, costuraram
Cordas de tripas e de violinos
(nunca soube o que era mais lindo)
E com as vísceras atadas
Ateou fogo às cartas
Na entrada da casa.
Que casa, que nada
Prisão de luz,
Irmanada com o Engano.
Enfrentou a estradinha de terra
Que dava para a noite
“Eu quero esse escuro
E uma lanterna antiga
Como aquela que vi
Numa carta do Eremita”
De vez em quando ainda escorre da barriga
Aquele pouco de sangue
Mas não é nada que não estanque,
Com chumaços de pasto
Ou farrapos de camisa.
(não fica bem nua, mas tem o direito de gostar da brisa)
E espantalho de velhos amores
Segue mítica um ritmo torto
Magreza de morto, mas tão viva quanto um elefante
Raquítica, mas não como antes:
o ventre agora intumescido
(de vento, de torpor, de amante
em gestação)
E o que falarão na cidade
Quando ela chegar
Despojada dos diamantes
Para adentrar nas casas?
“Fica de fora, filha”
“Contempla as luzes, sente frio”
Ela vai sentar no meio fio
E esperar catástrofes.
(catástrofes sempre têm luzes)
E depois escuros
Lindos,
Lindos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

autoimolação



queimados, os lábios têm direito a bálsamos e curas:

em vez de medicina, cinema

e abraços, no lugar de ataduras.

atordoado, o beijo (poema)

ilumina salas escuras:

sal de lágrima sobre queimaduras.

Imagem: Filetes: Enfeites Para Pulsos, 2010

sexta-feira, 4 de março de 2011

Fugas e Sonatas

Estava com um olhar de pêndulo sobre os sapatos desamarrados. 
Aproximei-me dele e até pensei "vou colocar a mão sobre o seu ombro", mas desisti como quem se aproxima muito do fogo. "É por isso que anda sozinho. As pessoas se queimam."
- Que se pasa?- indaguei com meu melhor sotaque bêbado.
- Perdi uma palavra por aqui.
Nem sequer levantou os olhos para mim. Continuava oscilando entre um sapato e outro, como se as rachaduras entremeadas no cimento da calçada possuíssem trilhas de mapa e ele quisesse localizar um caminho. Pensei que eu também sempre fui de procurar mapas nos cantos mais inusitados de uma cidade imensa ou entre entulhos insignificantes no mato. Mas tem muito tempo que não vejo o mato, só um mato metafórico que traz a voz de uma mãe morta lembrando o tempo de cortar a grama. Lapsos me cortam a memória entre frações ínfimas quando alguém me diz qualquer coisa. É por isso que me perco em desrraciocínios e minhas respostas às vezes demoram a encontrar formulação. Sacudi a cabeça num movimento quase imperceptível, mas eficaz para exortar a vagueza. As nuvenzinhas de passado se afastam como se Deus tivesse me soprado nos olhos com sua voz clássica grega: "O rapaz está no aguardo!" E a minha própria voz retorna antes do exato segundo em que o silêncio se faria constrangimento:
- Me aconteceu uma vez.
Só aí que ele levantou os olhos. Era como se um vento repentino aproximasse brasas em direção ao meu rosto.
- Você perdeu também?
- Três, de uma tacada. Três bem importantes.
Ele não perguntou quais. Não é estúpido, de olhar pra mim já sabe que estão perdidas ainda.
- Só perdi uma. Bem aqui. -voltou a olhar pra baixo- Se soltou assim...
- Você estava escrevendo ela?
Massas de nuvens em sépia retornam sorrateiras. Eu mesmo as desenhei em giz pastel um dia. Naquele dia em que deixei ir embora as minhas três palavras. Porque eu perdi, mas a culpa é minha. (nem sempre a gente é merecedor delas). 
- Ia dizê-la.
Ia dizer a ele que não se alarmasse, que às vezes é melhor nos livrarmos de algumas palavras (bonitas ou fortes) porque outras mais esclarecidas só nascem do esforço provocado pelo esquecimento.
- Havia outras segurando ela pela mão? Vieram outras no encalço dela?
Estava curioso porque no meu caso não sobrara nenhuma.
- Veio sozinha e se foi. Só me lembro que era trêmula e inquieta como um vaga-lume. 
Senti que ele esperava anoitecer para que talvez ela retornasse vagalúmica. Nesse pensamento uma das minhas palavras perdidas passou como um vulto de vento e fiz com a mão um movimento de captura. Mas era tarde demais. Ele entendeu que eu lhe estendia os meus dedos e meio tímido, segurou uns três, sem saber direito o que fazer com eles. Nos olhamos surpresos como se uma palavra nova tivesse nascido bem ali, diante de nós, e apertamos os dedos um do outro para que ela não escapasse. Não quis soltar porque a queria minha. Ele não soltava porque compartilhava o desejo. Queimava mesmo. Tive medo, mas não quis desistir da palavra. Vou usar de astúcia. 
- Sua palavra!
Apontei para os sapatos onde o olhar dele andara pendulando quando o encontrei. Ele estendeu olhar e mãos para o vazio e quando levantou de novo o rosto, eu já saíra correndo. Só bem longe que fui olhar para a palavra. Eram apenas três pontos meio apagados. Se dissolveram rapidamente antes que eu pudesse usá-los para qualquer coisa. É a natureza das reticências. Compreendi que o acaso só me dava sentenças soltas, e que se Deus ou o Destino me falavam claro, era a minha percepção das coisas que se anuviava em vaguezas.
Corri o mesmo caminho, de volta, como se riscasse no asfalto com um giz sépia as linhas de um mapa. Até ele. Mas já não estava lá. Pensei que deveríamos ter dividido os três pontos. Um para ele, um na minha mão, outro pra que nós dois cortássemos ao meio e inventássemos juntos uma finalidade. Queria ter dito: não se preocupe com o que está perdido. É melhor que se invente o novo. Sentei ali onde o encontrara e olhei pra baixo com um olhar de pêndulo sobre os meus sapatos. Sentia frio, e vinha de mim. É por isso que eu tenho andado sozinho. 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Desdor

Hoje a memória veio com essa de me dar golpe inverso.
Fechei livro, andei pela casa, sentei-me na esquina.
Fiz esforço. 
A mente gasta começava a inventar desculpas,
querendo motivos pra desenhos e poemas.
Não havia nem um rastro de culpa.
A noite se anunciava linda 
e eu usava meu casaco novo pra me sentar na esquina.
Vou ao dentista, vou falar de filmes com Mariana, vou fazer matrícula.
Se eu morresse hoje, queria morrer em casa.
Mas não vou porque sinto pena de minha mãe.
Não vou porque amanhã tenho que ser feliz,
e o tempo é curto.
Dói ainda -ah, sim, o golpe inverso da memória
Mas essa dor que eu dizia é uma desdor.
A cada dia que passa alguém gentil me sopra no peito
(ou serei eu mesmo que o faço?)
do mesmo jeito que soprariam sobre os joelhos esfolados de uma criança.
E vai criando casca.
Do mesmo jeito.
Me machuquei um dia, e nem me lembro mais como.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Como Abraçar Abismos

Acontece uma, duas vezes. Na terceira você vislumbra o depois e acerta imediatamente quase todos os passos desta história. Parece que tudo é permeado pela mesma falta de graça ilógica das narrativas mais clichês; um começo um tanto complicado, em que as peças do jogo se apresentam em constante conflito e as identidades se deixam entrever sob uma névoa de ilusão e frequentemente, engano. O meio é onde os elementos conflitantes se chocam e as partes envolvidas se vêem refreadas pelos restos deles. O que sobra protagonizará o fim: claro e raso. O gran finale é tremendamente burro e previsível. Toda a boa ambiguidade das lutas e das tentativas vãs já foi rechaçada a essas alturas. O que fica é só a poeira indelével de um passado mal vivido chamando a atenção para um sonho de futuro limpo. Entre esses pólos, essa coisa movediça, morna e descartável chamada presente.

Está feita uma rotina de amores fracassados e esperanças que não se deveria ter. É tudo tão repleto da mesma essência medíocre, feita de egocentrismo e covardia. O nojo toma conta de mim, toma conta de um dia inteiro. Se arrasta até a noite macilenta da falta de sono e opaca de paredes que ostentam há anos a mesma cor de gosto duvidoso. Atinge a manhã próxima, começa a fazer parte da engrenagem empesteada de insignificâncias. Estou farto das coisas previsíveis. Estou farto do tédio produzido pelas explicações insatisfatórias, pelos rompimentos dramáticos, pela falta de graça inexplicável. Há mais que isso? Eu deveria me dobrar à uma aparente vontade divina, de desolação assentida e movimentos maquinais que conduzem às coisas mais óbvias? Até onde um lamento trêmulo e constante como uma vela de oração pode me levar em transcendência? Que armas busco, e onde as encontro, para me revoltar com sabedoria?

Eu quero um pouco mais do que o ordinário gasto e sujo que me acometeu todas as extremidades nos últimos tantos meses. Não que a vida me surpreenda. Isto seria aceitar mais um clichê, acreditar de novo em felicidades 35 mm. Não mais. Que a vida se faça absurdo e caos, e no meio disso uma colisão estrondosa produzindo frutos que não existem. Eu só quero o que não existe diante dos olhos. Meus olhos de dentro ultrapassaram os teus para ver em você o que não existe no mundo físico. Nunca vi aqui fora um lugar tão bonito. Eu te esperava há tanto tempo, e no entanto, estes meus olhos só souberam ser espelho. Você se viu mais bonito neles do que jamais seria em outros. Eu, uma hora me desgastei tanto do teu rosto que me desfiz em areia e vidro. E tudo isso foi há muito, muito tempo.

Encontrei esquecimento ou sossego? Olho para as pedras esperando ouvir nelas algum eco. Um reflexo de mim mesmo, quem sabe, a reverberar meu nome. O meu próprio rosto está agora entre as minhas mãos e penso: se eu beijá-lo, me apaixono. Então me afasto das pedras e me aproximo da água, morto de sede e cansaço. Ela não te reflete em matéria, mas ondula à menor brisa, do mesmo modo como a tua pele ondulava quando eu soprava. Sossego, eu acho. Sossego.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Cosmogonia




Meu deus entronizado
em teu corpo, penetrado.
Falo de mim em ti.
E te reconheces.
E o oposto também se faz verdade.
Arrebatamento cósmico,
religião fundada em foda:
somos egípcios.
civilizados antes dos civilizados
sei teus anéis
e dentro deles
vejo Saturno de perto.
conheço âmagos
e me conheces.
os outros nascem
e se proliferam.
estranhas distâncias
se instauram.


Imagem: The Origin of Love- Hedwig and The Angry Inch

domingo, 13 de fevereiro de 2011

De Monstros Marinhos




Incômodos, inconformados, inconscientes e descomunais, seguimos.
Incômodos por valia e orgulho. Sim, nos divertimos com isso. Gostamos de ver nos rostos o incrédulo das percepções corriqueiras. Que horror que temos do ordinário, do rotineiro, do banal. Foi assim que nos perdemos do singelo. E nos perdendo do singelo, criamos vida. De monstros marinhos fellinianos em doces vidas escancarando o horror e a nocividade da vida do homem. Nossas vidas. Nosso horror diário e nossas falas nocivas uns aos outros e balsâmicas para os egos de nós mesmos. Que horror, que torpor. Que lindos e tristes nos tornamos. Tanta pena de mim mesmo e de vocês. Tanta inveja dos outros, quando eles encaram estas noites com tantos sonos tranquilos e expectativas vãs. Que doce deve ser ter expectativas de ter. Queremos ser e sofremos. Não somos tanta coisa desejada. Somos tanta insatisfação e lamúria. Estamos sempre entre o demasiado e o escasso. O esparso encerrado em nossas pequenezas, em nossas queixas ínfimas, infinitas, infames e inseparáveis de nós mesmos. Oito e oitenta, coito e poema. Dia e noite, sal de lágrima e de tequila. Prestamos honra ao descaso, mas jamais com desamor. Amamos tudo. Abnegadamente, até o osso. Até o grosso do semelhante, sempre tosco. Quase sempre, essencialmente, raso. Mas amamos. Até o fundo do poço. E é talvez por isso que odiamos despontecialidades. Despotencialidade é a qualidade dos resignados da vida em sujar de bosta o que têm de brilho. Escurecem até o âmago. E sim, só queremos lume. Luz. Fagulha, que seja. Menos que isso é desrespeito.
Inconformados, exatamente por isso. Pelo desperdício. De brilho encoberto. De bosta encobrindo brilho. 
Inconscientes. (aqui, uma pausa)
... Outra margarita. Outro cigarro. Um momento para o banheiro e para o espelho. Para tropeços e ensejos. De ser qualquer coisa além da sala e dos copos e da fumaça e do papo. Quase sono, vertigem, viagem. Descomunais. Desloco-me do espaço e do tempo. Eles se deslocam. Rimos trêmulos e trôpegos e já nem nos sabemos. Mas cresço, cresces, crisis, crescemos. Eu danço no quintal, eles se beijam. A vida nos veste de tempo e eu digo: que lindos! e eles riem como se sequer acreditassem. Em mim. Presencio o amor, ou a farsa do amor, ou a ilusão do, ou a existência do mesmo -curta ou perene. E enquanto me afasto, cresço. Enquanto me aproximo, cresço. Nos olhamos no olho, como ninguém mais olha: até cair bem dentro do olho do outro. E crescemos. Descomunalmente. Fomos nos embriagar, mais uma vez. E aí acabamos no tapete, luz de abajur, túnel de mente, correndo rápido, rodopiando, cabeça no chão, rodopiando, luz de fundo de túnel, rodopiando: ciclos, ciclos, ciclos: luzes, túneis, sonos. Depois sonhos. Que horror, que torpor. Clareza e tédio. Deus queira, não acordemos.


Imagem: La Dolce Vita, Federico Fellini

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tettiigonia viriidissima

Tem uma esperança do lado de fora, com as patas coladas ao vidro da janela. Fui olhar de perto e percebi nela um olhar que dizia: vai, me deixa entrar. Fiquei tentado, mas não deixei. Horas depois retornei ao quarto, disposto a dar à sorte uma chance. Ela já havia ido embora. Bateu tristeza. Estou sempre adiando a visita dela. Um dia esses bichos se cansam e não voltam mais.
Ela olhou para dentro, de braços abertos. Deve ter semicerrado os olhos para enxergar, na luminosidade fraca do quarto, através da vidraça embaçada, o meu rosto. Nossos olhos se encontraram e, mais uma vez, dizimei uma expectativa. Ela deve ter soltado as pequenas patas, pensado amanhã, quem sabe, e então se lançado ao escuro.
Agora olho para o mato lá fora, tentando divisar no breu algum vôo que brilhe verde. Amanhã, quem sabe. Fecho as cortinas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Que Coisas, Que Verbos?

Os dias foram ficando frios. Uma parte de mim mais jovem que essa que eu vejo sem querer nos reflexos dos carros fica querendo invernos que não se fazem mais. Quando imaginava como seriam os invernos em tantas partes do mundo que a parte jovem de mim jamais visitou. Vi muito pouco do que queria ver antes dos vinte e cinco. Provavelmente terei visto muito pouco ainda, aos trinta. Essas faltas às vezes se agarram aos dias como uma presença não querida. A memória das coisas que não foram. Os não-acontecimentos se desenrolando todos, enquanto os carros passam e eu me recolho pra mais perto de mim mesmo, querendo invernos que não chegam mais no mundo. Não neste mundo. Sempre recuos nostálgicos esses. Querendo voltar pra não sei bem onde, querendo ser algo que não pertence ao verbo. Que coisas são essas que se precisa tanto e que não se prestam à existência?
Que desexistissem mil coisas que povoam os meus dias. Que desexistissem os dias. As vinte e quatro horas deveriam ter sempre a cor da iminência das noites. Crepúsculos combinam comigo. Estamos sempre prestes a alguma coisa. O azul escurece e é sempre imperceptível o exato instante em que vira noite. Pressinto a primeira estrela e a intuição me vem como um vento que só existe às dezoito horas. É quando fecho os olhos e penso: para, tempo. 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ave

Gosto dos percursos. Mas entrei na vida pra olhar percursos alheios, quem sabe. Me desviam daqui e dali, de mim, do outro de mim que só mostrei um par de vezes e nunca mais mostro de novo porque transfigurou-se. Serpenteiam pelos caminhos e pelo nosso corpo como fumaça, enguia, água.  Uma vez tentei ser represa. Mas encontraram rachadura. Lançaram-se contro o muro até que fissura fosse feita. A mesma pedra que amparava todos os pesos, agora entrecortada, de linhas e vãos. Restam sempre os vazios dos fardos que me penderam dos ombros. Triste querê-los de volta. Ser assim, paragem. Ponto de trânsito, rota de contrabando. 
Eles passam, e não se demoram. Mesmo que eu faça os caminhos repletos de macelas do campo e sopre e sopre para que elas se espalhem e lhes amorteçam os sentidos. Nem no sono permanecem. Mesmo que eu encha os travesseiros de macelas do campo, e as beije uma a uma antes de enchê-los. Mesmo que eu lhes encha os estômagos com as minhas vísceras, para que nos entrelacemos. Fumaça, enguia, água. Sobram flores queimadas. Macelas do campo no vento, sexta-feira santa, beira de estrada. Parece poeira. Parece que o sol está chovendo. 
Eles passam, eu deposito na terra o cesto, para erguer o braço e dizer "ave". Eles passam e eu digo: "ave". Depois olho para o céu e vislumbro migrações. Penso que Courbet pintaria a cena e Deus me diz "coitado, tão deslocado do tempo" e eu digo: "vade". 
"Ave, moços. Ave." Passem. Viro heliotrópio em busca de uns cabelos dourados. Assim, enraizado nas esperas, sou. O heliotrópio das esperas. Moço que indica direções. Rosa dos Ventos no olho, me olham no olho e acham. Viajam. Itinerantes são salvos o tempo todo. Vão para casa ou para o destino. Moço ainda. Tempos passam. Moço ainda. As macelas do campo secam e escurecem e depois retornam e se desprendem de novo. Parece que o sol está chovendo, e não tão moço eu digo "ave, moço", quando eles passam. 
Se me perguntam pra que lado fica o reino eu digo que o reino fica ao Sul ou ao Leste, e indico com uma mão que depois repouso sobre o peito: "aqui. é aqui que fica o reino." Sussurro o nome do meu reino e desprendo macelas do campo da minha boca. Se um escuta, ri-se. E eu me rio ao confundir sarcasmo com sorriso. É que sempre foi assim. Um pagou-me a indicação do caminho com uma moeda do Sesquicentenário da Independência do Brasil. Deus me disse: "coitado." E deslocado do meu tempo acreditei que a moeda fosse medalha. Celebro hoje o sesquicentenário da passagem dele. Um vulto desaparece atrás de uma curva, todas as noites. Algumas presenças deixam esse tipo de resquício. Fantasmas passam e eu digo "ave."

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Quarto (Música de Câmara)

Por enquanto é como se eu falasse apenas de coisas encerradas num quarto. É um quarto bonito, mas recebe pouca luz. Gostaria que a janela estivesse disposta para o leste, mas é para o oeste que ela se abre. E eu escrevo, escrevo carta e poema e qualquer pensamento que me venha como memória de maresias e minuanos. Sou aquele diante da escrivaninha esperando que a vida passe pra fazer dela qualquer coisa rebuscada num romance. Diante de mim e sob a minha mão a vida pode ser mais intempestiva ou mais luminosa, e por vezes, mais enfadonha e muito mais injusta. Onipotência sobre pequenas coisas que jamais existiram. Por outro viés, personificação de impassividade e desistência. Quando muito um esperar desesperançado, enquanto um relógio antigo de pêndulo só trabalha tempos passados.
Sou aquela mulher debruçada sobre a penteadeira enquanto a festa acontece nos cômodos anexos. As esposas de Vermeer, sempre à espera de navios e homens, sempre bem colocadas entre lunetas e mapas e com olhares perdidos nas distâncias muito além das janelas. Penélopes em Ítacas-miragens, habitando suspiros e sóis das cinco horas.
A morosidade das tardes que se desenrolam entre tapetes e papéis de parede com motivos de flores. Naturezas-mortas enquadradas em imitação de ouro e coleções de clássicos empoeirando nas prateleiras. Gavetas guardam mais de mim do que expressões faciais que têm mudado muito pouco. Cartões postais me lembram das viagens que ainda não fiz e das que não farei jamais. E fica tudo tão vasto se eu demorar pensamento e a mão sobre as dobras da colcha, visão sobre a poeira descendo lenta um caminho de resto de sol.
Há tanta coisa entre vidros de perfume, papéis guardados, caixas intocadas num fundo de guarda-roupa. Vidas insuspeitas morrem e renascem sob o pé da cama, dentro das lâmpadas queimadas, atrás dos armários, nos forros dos casacos, em frascos sem serventia...
Morrer aqui deve ser uma sonolência vespertina, incitada pelo simples roçar de um vestido ou de um feixe de luz. A vida às vezes é um tanto faz compassado numa musiquinha que vem de fora, muito de longe, trilha distante, mas sempre presente, de pequenas angústias que já nem se sabem angústias. O resto do tempo é vigília, é experimentar viagens temporais despertadas por singelezas. Um casaco velho que se prova, um retrato cujo rosto desenhado já não se distingue mais entre tantos rostos desenhados. A mão que pressiona apenas uma tecla e depois repousa no ar os dedos, e mesmo assim desperta e ecoa fugas e sonatas e prelúdios e suítes e réquiens e réquiens e réquiens...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mal Entendido



"Por favor, devolva todos os livros sobre a Índia (exceto aquele sobre os rituais de sati), a luminária de porcelana amarela e tudo o que for do Leonard Cohen. Pode ficar com o resto. Apenas coloque numa caixa e deixe na portaria do prédio. Mais uma coisa: não esqueça de aguar o pimenteiro duas vezes por dia."


Há uma fogueira dentro do banheiro. A porcelana amarela tem desenhos de estrelas. A lâmpada espoca, a tinta derrete e cria abstrações admiráveis. Páginas e páginas se consomem em sânscrito. O Templo Dourado de Amritsar nunca foi tão dourado quanto agora. Nova Délhi está em chamas. Jamais veremos Nova Délhi. Hallelujah se retorce em acrílico, Suzanne se desmancha em notas de alumínio, Take this Longing se decompõe em policarbonato. Tudo brilha e não há som algum. But you don't really care for music, do ya? 


O resto está numa caixa, na portaria do prédio. No meio da rua, um vaso de plantas quebrado, um punhado de terra e uma pimenta vermelha brilhando no asfalto. Tudo brilha e não há som algum. Ele devora no silêncio os livros que restaram. Está fascinado pelos rituais de sati.


Imagem: Burning of A Hindoo Widow, by James Peggs

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Para Recordar o Nome Dele



Eu aguardava, atrás de uma pilastra, o momento de acercar-me do Outro. Este, deitado de bruços sobre algo que se parecia uma cama, mas era pedra ritual, movimentava-se em estado de vigília, próximo de um despertar. Eu observava seus movimentos sentindo os meus próprios músculos se moverem contra a minha vontade, numa espécie de mimese que continha mais de compartilhamento e união do que projeção de um eu oposto sobre o Outro. E comecei a caminhar até ele. Degraus se mostraram aos meus pés e cada passo nascia de um automatismo que não poderia ser contido. Ele permanecia deitado, eu não lhe via o rosto, mas sabia que todos os seus movimentos eram em minha direção, como chamamento, como a confluência de dois rios desejando livres de consciência humana, plenos de outra consciência, esta aberta e una, um encontro de abraço cósmico: atemporal e não-físico.

E eu doía. Cada parte irreconhecível de mim doía enquanto eu me aproximava e me aproximava, porque deixava de ser humano, mas ainda havia distância. Ondas brancas flanavam sobre aquele corpo. O sol irradiava pelo pátio e a ausência de teto me dizia que havia um caminho de ascensão à nossa espera, ou então que havia sido uma estrada vertical a que o trouxera. Depois, exausto, caíra em sono profundo. Dormiria dez séculos, se eu não chegasse. Ninguém o surpreenderia porque nossa lógica de espaço não permite aproximações. Habitaremos vastidões e ainda assim, não caberão os outros.

Atingia a beira da pedra, estendia dedos prontos a conhecerem epifania e perdição, enquanto um vento leve me roubava a vez e lhe tocava os cabelos iluminados. Uma religião inteira se fundava ali. Eu fremia e me inundava de luz também e vi os átomos espocarem e darem lugar a outra coisa que ninguém conhece. Tentei dizer "acorda, acorda", mas não sabia a língua nem o nome nem os títulos de nobreza. Então chamei com um sopro e ele se voltou inteiro, como se o próprio sopro tomasse a forma de uma rede que o alçasse em minha direção. Escutei o nome.

Desapareceram escadas e colunas ruíram porque não precisavam sustentar coisa alguma. Do lado de fora só havia céu. Asas planavam decepadas e borrifavam as nuvens de vermelho. Meus ouvidos de homem não foram feitos para gritos de ouro. Os sussurros dele eram a morte do mundo e o meu deleite. Pessoas nunca existiram, pessoas nunca existirão. A própria Terra foi um sonho que ele teve enquanto me esperava. No cerne do tempo, eu diria que nos unimos, mas não é de espaços que falo.

Já desenhei casas em Júpiter, já sonhei com poentes que a compreensão humana jamais admitiria. Depois dele o acordar é uma violência metafísica. Se te arrancam os olhos, a escuridão é absoluta, mas quando você dorme, a cegueira não existe. Algo de mim foi arrancado, mas não é visão. Não é nenhum sentido plausível para a experiência dos homens em relação a um mundo de coisas, cores e formas. Porque não há verbo que o contenha, silencio.

Visto minhas roupas e calço os meus sapatos. O sentimento do homem se perde na crueldade de ser alguma coisa. Então recomeço as lidas diárias, o sofrimento latejando a cada vez que os olhos se deparam com as mediocridades. Está por todo o lado. Era melhor não ter visto. Coisa de mim dilacerada, não me devolverão jamais. Amputaram antes que eu nascesse, como aquelas asas que caíam tão pesadas sobre as nuvens, me ensurdecendo para esta vida de agora. Realidades? Quais? Existem de toda a sorte, e não me cabe nenhuma. Até minha imaginação, depois daquilo, ficou rota, pobre, aleijada. O ápice só deveria ser dado na hora da morte, e além dela. Do contrário, se vive transitando entre o que não tem nome e o que é nominável por mera crueza e pequenez. Os milhões de loucos olham e riem e não entendem e apontam e sussurram com a voz horrenda da turba: "é ele o louco. É ele. Não somos nós."

Imagem: Abbys- Jan Saudek, 1988

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

For the Lunar Sea, See the River Moon and You Got It

Três nãos, um nó, um nada na garganta. Respiro é faca abrindo esôfago pra mostrar pro dentro que o ar que entra nem cor tem, nem gosto, nem graça. Ela tomou um gole de tédio e mais uns dois de consciência, e depois arrancou os pontos e os panos, enquanto lhe caíam os anos pelos rasgos no vestido. Talvez uns dentes, pra deixar com os anéis pelos caminhos.
Correu pra ver se choro congela. Congela.
Então silenciou aos poucos, como um coração que desiste e vê no silêncio consolo maior que a cura. Esses males, ela me disse, são sais e açucares. Melhor seria se fossem ou um ou outro. Água de mar ou de rio. Confluências, não as queira. Uma vida agridoce tem um preço.
O apreço por recaídas, abandonei à beira do tropeço, quando me olhei naquela margem. E foi numa noite tão escura, que precisava estar escura, agora entendo. Olhei o rio.
E acreditei quando ela me disse que as estrelas estavam na água e que o céu era o espelho delas.