sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mal Entendido



"Por favor, devolva todos os livros sobre a Índia (exceto aquele sobre os rituais de sati), a luminária de porcelana amarela e tudo o que for do Leonard Cohen. Pode ficar com o resto. Apenas coloque numa caixa e deixe na portaria do prédio. Mais uma coisa: não esqueça de aguar o pimenteiro duas vezes por dia."


Há uma fogueira dentro do banheiro. A porcelana amarela tem desenhos de estrelas. A lâmpada espoca, a tinta derrete e cria abstrações admiráveis. Páginas e páginas se consomem em sânscrito. O Templo Dourado de Amritsar nunca foi tão dourado quanto agora. Nova Délhi está em chamas. Jamais veremos Nova Délhi. Hallelujah se retorce em acrílico, Suzanne se desmancha em notas de alumínio, Take this Longing se decompõe em policarbonato. Tudo brilha e não há som algum. But you don't really care for music, do ya? 


O resto está numa caixa, na portaria do prédio. No meio da rua, um vaso de plantas quebrado, um punhado de terra e uma pimenta vermelha brilhando no asfalto. Tudo brilha e não há som algum. Ele devora no silêncio os livros que restaram. Está fascinado pelos rituais de sati.


Imagem: Burning of A Hindoo Widow, by James Peggs

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