quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Quarto (Música de Câmara)

Por enquanto é como se eu falasse apenas de coisas encerradas num quarto. É um quarto bonito, mas recebe pouca luz. Gostaria que a janela estivesse disposta para o leste, mas é para o oeste que ela se abre. E eu escrevo, escrevo carta e poema e qualquer pensamento que me venha como memória de maresias e minuanos. Sou aquele diante da escrivaninha esperando que a vida passe pra fazer dela qualquer coisa rebuscada num romance. Diante de mim e sob a minha mão a vida pode ser mais intempestiva ou mais luminosa, e por vezes, mais enfadonha e muito mais injusta. Onipotência sobre pequenas coisas que jamais existiram. Por outro viés, personificação de impassividade e desistência. Quando muito um esperar desesperançado, enquanto um relógio antigo de pêndulo só trabalha tempos passados.
Sou aquela mulher debruçada sobre a penteadeira enquanto a festa acontece nos cômodos anexos. As esposas de Vermeer, sempre à espera de navios e homens, sempre bem colocadas entre lunetas e mapas e com olhares perdidos nas distâncias muito além das janelas. Penélopes em Ítacas-miragens, habitando suspiros e sóis das cinco horas.
A morosidade das tardes que se desenrolam entre tapetes e papéis de parede com motivos de flores. Naturezas-mortas enquadradas em imitação de ouro e coleções de clássicos empoeirando nas prateleiras. Gavetas guardam mais de mim do que expressões faciais que têm mudado muito pouco. Cartões postais me lembram das viagens que ainda não fiz e das que não farei jamais. E fica tudo tão vasto se eu demorar pensamento e a mão sobre as dobras da colcha, visão sobre a poeira descendo lenta um caminho de resto de sol.
Há tanta coisa entre vidros de perfume, papéis guardados, caixas intocadas num fundo de guarda-roupa. Vidas insuspeitas morrem e renascem sob o pé da cama, dentro das lâmpadas queimadas, atrás dos armários, nos forros dos casacos, em frascos sem serventia...
Morrer aqui deve ser uma sonolência vespertina, incitada pelo simples roçar de um vestido ou de um feixe de luz. A vida às vezes é um tanto faz compassado numa musiquinha que vem de fora, muito de longe, trilha distante, mas sempre presente, de pequenas angústias que já nem se sabem angústias. O resto do tempo é vigília, é experimentar viagens temporais despertadas por singelezas. Um casaco velho que se prova, um retrato cujo rosto desenhado já não se distingue mais entre tantos rostos desenhados. A mão que pressiona apenas uma tecla e depois repousa no ar os dedos, e mesmo assim desperta e ecoa fugas e sonatas e prelúdios e suítes e réquiens e réquiens e réquiens...

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