domingo, 20 de fevereiro de 2011

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Como Abraçar Abismos

Acontece uma, duas vezes. Na terceira você vislumbra o depois e acerta imediatamente quase todos os passos desta história. Parece que tudo é permeado pela mesma falta de graça ilógica das narrativas mais clichês; um começo um tanto complicado, em que as peças do jogo se apresentam em constante conflito e as identidades se deixam entrever sob uma névoa de ilusão e frequentemente, engano. O meio é onde os elementos conflitantes se chocam e as partes envolvidas se vêem refreadas pelos restos deles. O que sobra protagonizará o fim: claro e raso. O gran finale é tremendamente burro e previsível. Toda a boa ambiguidade das lutas e das tentativas vãs já foi rechaçada a essas alturas. O que fica é só a poeira indelével de um passado mal vivido chamando a atenção para um sonho de futuro limpo. Entre esses pólos, essa coisa movediça, morna e descartável chamada presente.

Está feita uma rotina de amores fracassados e esperanças que não se deveria ter. É tudo tão repleto da mesma essência medíocre, feita de egocentrismo e covardia. O nojo toma conta de mim, toma conta de um dia inteiro. Se arrasta até a noite macilenta da falta de sono e opaca de paredes que ostentam há anos a mesma cor de gosto duvidoso. Atinge a manhã próxima, começa a fazer parte da engrenagem empesteada de insignificâncias. Estou farto das coisas previsíveis. Estou farto do tédio produzido pelas explicações insatisfatórias, pelos rompimentos dramáticos, pela falta de graça inexplicável. Há mais que isso? Eu deveria me dobrar à uma aparente vontade divina, de desolação assentida e movimentos maquinais que conduzem às coisas mais óbvias? Até onde um lamento trêmulo e constante como uma vela de oração pode me levar em transcendência? Que armas busco, e onde as encontro, para me revoltar com sabedoria?

Eu quero um pouco mais do que o ordinário gasto e sujo que me acometeu todas as extremidades nos últimos tantos meses. Não que a vida me surpreenda. Isto seria aceitar mais um clichê, acreditar de novo em felicidades 35 mm. Não mais. Que a vida se faça absurdo e caos, e no meio disso uma colisão estrondosa produzindo frutos que não existem. Eu só quero o que não existe diante dos olhos. Meus olhos de dentro ultrapassaram os teus para ver em você o que não existe no mundo físico. Nunca vi aqui fora um lugar tão bonito. Eu te esperava há tanto tempo, e no entanto, estes meus olhos só souberam ser espelho. Você se viu mais bonito neles do que jamais seria em outros. Eu, uma hora me desgastei tanto do teu rosto que me desfiz em areia e vidro. E tudo isso foi há muito, muito tempo.

Encontrei esquecimento ou sossego? Olho para as pedras esperando ouvir nelas algum eco. Um reflexo de mim mesmo, quem sabe, a reverberar meu nome. O meu próprio rosto está agora entre as minhas mãos e penso: se eu beijá-lo, me apaixono. Então me afasto das pedras e me aproximo da água, morto de sede e cansaço. Ela não te reflete em matéria, mas ondula à menor brisa, do mesmo modo como a tua pele ondulava quando eu soprava. Sossego, eu acho. Sossego.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Cosmogonia




Meu deus entronizado
em teu corpo, penetrado.
Falo de mim em ti.
E te reconheces.
E o oposto também se faz verdade.
Arrebatamento cósmico,
religião fundada em foda:
somos egípcios.
civilizados antes dos civilizados
sei teus anéis
e dentro deles
vejo Saturno de perto.
conheço âmagos
e me conheces.
os outros nascem
e se proliferam.
estranhas distâncias
se instauram.


Imagem: The Origin of Love- Hedwig and The Angry Inch

domingo, 13 de fevereiro de 2011

De Monstros Marinhos




Incômodos, inconformados, inconscientes e descomunais, seguimos.
Incômodos por valia e orgulho. Sim, nos divertimos com isso. Gostamos de ver nos rostos o incrédulo das percepções corriqueiras. Que horror que temos do ordinário, do rotineiro, do banal. Foi assim que nos perdemos do singelo. E nos perdendo do singelo, criamos vida. De monstros marinhos fellinianos em doces vidas escancarando o horror e a nocividade da vida do homem. Nossas vidas. Nosso horror diário e nossas falas nocivas uns aos outros e balsâmicas para os egos de nós mesmos. Que horror, que torpor. Que lindos e tristes nos tornamos. Tanta pena de mim mesmo e de vocês. Tanta inveja dos outros, quando eles encaram estas noites com tantos sonos tranquilos e expectativas vãs. Que doce deve ser ter expectativas de ter. Queremos ser e sofremos. Não somos tanta coisa desejada. Somos tanta insatisfação e lamúria. Estamos sempre entre o demasiado e o escasso. O esparso encerrado em nossas pequenezas, em nossas queixas ínfimas, infinitas, infames e inseparáveis de nós mesmos. Oito e oitenta, coito e poema. Dia e noite, sal de lágrima e de tequila. Prestamos honra ao descaso, mas jamais com desamor. Amamos tudo. Abnegadamente, até o osso. Até o grosso do semelhante, sempre tosco. Quase sempre, essencialmente, raso. Mas amamos. Até o fundo do poço. E é talvez por isso que odiamos despontecialidades. Despotencialidade é a qualidade dos resignados da vida em sujar de bosta o que têm de brilho. Escurecem até o âmago. E sim, só queremos lume. Luz. Fagulha, que seja. Menos que isso é desrespeito.
Inconformados, exatamente por isso. Pelo desperdício. De brilho encoberto. De bosta encobrindo brilho. 
Inconscientes. (aqui, uma pausa)
... Outra margarita. Outro cigarro. Um momento para o banheiro e para o espelho. Para tropeços e ensejos. De ser qualquer coisa além da sala e dos copos e da fumaça e do papo. Quase sono, vertigem, viagem. Descomunais. Desloco-me do espaço e do tempo. Eles se deslocam. Rimos trêmulos e trôpegos e já nem nos sabemos. Mas cresço, cresces, crisis, crescemos. Eu danço no quintal, eles se beijam. A vida nos veste de tempo e eu digo: que lindos! e eles riem como se sequer acreditassem. Em mim. Presencio o amor, ou a farsa do amor, ou a ilusão do, ou a existência do mesmo -curta ou perene. E enquanto me afasto, cresço. Enquanto me aproximo, cresço. Nos olhamos no olho, como ninguém mais olha: até cair bem dentro do olho do outro. E crescemos. Descomunalmente. Fomos nos embriagar, mais uma vez. E aí acabamos no tapete, luz de abajur, túnel de mente, correndo rápido, rodopiando, cabeça no chão, rodopiando, luz de fundo de túnel, rodopiando: ciclos, ciclos, ciclos: luzes, túneis, sonos. Depois sonhos. Que horror, que torpor. Clareza e tédio. Deus queira, não acordemos.


Imagem: La Dolce Vita, Federico Fellini

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Tettiigonia viriidissima

Tem uma esperança do lado de fora, com as patas coladas ao vidro da janela. Fui olhar de perto e percebi nela um olhar que dizia: vai, me deixa entrar. Fiquei tentado, mas não deixei. Horas depois retornei ao quarto, disposto a dar à sorte uma chance. Ela já havia ido embora. Bateu tristeza. Estou sempre adiando a visita dela. Um dia esses bichos se cansam e não voltam mais.
Ela olhou para dentro, de braços abertos. Deve ter semicerrado os olhos para enxergar, na luminosidade fraca do quarto, através da vidraça embaçada, o meu rosto. Nossos olhos se encontraram e, mais uma vez, dizimei uma expectativa. Ela deve ter soltado as pequenas patas, pensado amanhã, quem sabe, e então se lançado ao escuro.
Agora olho para o mato lá fora, tentando divisar no breu algum vôo que brilhe verde. Amanhã, quem sabe. Fecho as cortinas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Que Coisas, Que Verbos?

Os dias foram ficando frios. Uma parte de mim mais jovem que essa que eu vejo sem querer nos reflexos dos carros fica querendo invernos que não se fazem mais. Quando imaginava como seriam os invernos em tantas partes do mundo que a parte jovem de mim jamais visitou. Vi muito pouco do que queria ver antes dos vinte e cinco. Provavelmente terei visto muito pouco ainda, aos trinta. Essas faltas às vezes se agarram aos dias como uma presença não querida. A memória das coisas que não foram. Os não-acontecimentos se desenrolando todos, enquanto os carros passam e eu me recolho pra mais perto de mim mesmo, querendo invernos que não chegam mais no mundo. Não neste mundo. Sempre recuos nostálgicos esses. Querendo voltar pra não sei bem onde, querendo ser algo que não pertence ao verbo. Que coisas são essas que se precisa tanto e que não se prestam à existência?
Que desexistissem mil coisas que povoam os meus dias. Que desexistissem os dias. As vinte e quatro horas deveriam ter sempre a cor da iminência das noites. Crepúsculos combinam comigo. Estamos sempre prestes a alguma coisa. O azul escurece e é sempre imperceptível o exato instante em que vira noite. Pressinto a primeira estrela e a intuição me vem como um vento que só existe às dezoito horas. É quando fecho os olhos e penso: para, tempo. 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ave

Gosto dos percursos. Mas entrei na vida pra olhar percursos alheios, quem sabe. Me desviam daqui e dali, de mim, do outro de mim que só mostrei um par de vezes e nunca mais mostro de novo porque transfigurou-se. Serpenteiam pelos caminhos e pelo nosso corpo como fumaça, enguia, água.  Uma vez tentei ser represa. Mas encontraram rachadura. Lançaram-se contro o muro até que fissura fosse feita. A mesma pedra que amparava todos os pesos, agora entrecortada, de linhas e vãos. Restam sempre os vazios dos fardos que me penderam dos ombros. Triste querê-los de volta. Ser assim, paragem. Ponto de trânsito, rota de contrabando. 
Eles passam, e não se demoram. Mesmo que eu faça os caminhos repletos de macelas do campo e sopre e sopre para que elas se espalhem e lhes amorteçam os sentidos. Nem no sono permanecem. Mesmo que eu encha os travesseiros de macelas do campo, e as beije uma a uma antes de enchê-los. Mesmo que eu lhes encha os estômagos com as minhas vísceras, para que nos entrelacemos. Fumaça, enguia, água. Sobram flores queimadas. Macelas do campo no vento, sexta-feira santa, beira de estrada. Parece poeira. Parece que o sol está chovendo. 
Eles passam, eu deposito na terra o cesto, para erguer o braço e dizer "ave". Eles passam e eu digo: "ave". Depois olho para o céu e vislumbro migrações. Penso que Courbet pintaria a cena e Deus me diz "coitado, tão deslocado do tempo" e eu digo: "vade". 
"Ave, moços. Ave." Passem. Viro heliotrópio em busca de uns cabelos dourados. Assim, enraizado nas esperas, sou. O heliotrópio das esperas. Moço que indica direções. Rosa dos Ventos no olho, me olham no olho e acham. Viajam. Itinerantes são salvos o tempo todo. Vão para casa ou para o destino. Moço ainda. Tempos passam. Moço ainda. As macelas do campo secam e escurecem e depois retornam e se desprendem de novo. Parece que o sol está chovendo, e não tão moço eu digo "ave, moço", quando eles passam. 
Se me perguntam pra que lado fica o reino eu digo que o reino fica ao Sul ou ao Leste, e indico com uma mão que depois repouso sobre o peito: "aqui. é aqui que fica o reino." Sussurro o nome do meu reino e desprendo macelas do campo da minha boca. Se um escuta, ri-se. E eu me rio ao confundir sarcasmo com sorriso. É que sempre foi assim. Um pagou-me a indicação do caminho com uma moeda do Sesquicentenário da Independência do Brasil. Deus me disse: "coitado." E deslocado do meu tempo acreditei que a moeda fosse medalha. Celebro hoje o sesquicentenário da passagem dele. Um vulto desaparece atrás de uma curva, todas as noites. Algumas presenças deixam esse tipo de resquício. Fantasmas passam e eu digo "ave."