terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Ave

Gosto dos percursos. Mas entrei na vida pra olhar percursos alheios, quem sabe. Me desviam daqui e dali, de mim, do outro de mim que só mostrei um par de vezes e nunca mais mostro de novo porque transfigurou-se. Serpenteiam pelos caminhos e pelo nosso corpo como fumaça, enguia, água.  Uma vez tentei ser represa. Mas encontraram rachadura. Lançaram-se contro o muro até que fissura fosse feita. A mesma pedra que amparava todos os pesos, agora entrecortada, de linhas e vãos. Restam sempre os vazios dos fardos que me penderam dos ombros. Triste querê-los de volta. Ser assim, paragem. Ponto de trânsito, rota de contrabando. 
Eles passam, e não se demoram. Mesmo que eu faça os caminhos repletos de macelas do campo e sopre e sopre para que elas se espalhem e lhes amorteçam os sentidos. Nem no sono permanecem. Mesmo que eu encha os travesseiros de macelas do campo, e as beije uma a uma antes de enchê-los. Mesmo que eu lhes encha os estômagos com as minhas vísceras, para que nos entrelacemos. Fumaça, enguia, água. Sobram flores queimadas. Macelas do campo no vento, sexta-feira santa, beira de estrada. Parece poeira. Parece que o sol está chovendo. 
Eles passam, eu deposito na terra o cesto, para erguer o braço e dizer "ave". Eles passam e eu digo: "ave". Depois olho para o céu e vislumbro migrações. Penso que Courbet pintaria a cena e Deus me diz "coitado, tão deslocado do tempo" e eu digo: "vade". 
"Ave, moços. Ave." Passem. Viro heliotrópio em busca de uns cabelos dourados. Assim, enraizado nas esperas, sou. O heliotrópio das esperas. Moço que indica direções. Rosa dos Ventos no olho, me olham no olho e acham. Viajam. Itinerantes são salvos o tempo todo. Vão para casa ou para o destino. Moço ainda. Tempos passam. Moço ainda. As macelas do campo secam e escurecem e depois retornam e se desprendem de novo. Parece que o sol está chovendo, e não tão moço eu digo "ave, moço", quando eles passam. 
Se me perguntam pra que lado fica o reino eu digo que o reino fica ao Sul ou ao Leste, e indico com uma mão que depois repouso sobre o peito: "aqui. é aqui que fica o reino." Sussurro o nome do meu reino e desprendo macelas do campo da minha boca. Se um escuta, ri-se. E eu me rio ao confundir sarcasmo com sorriso. É que sempre foi assim. Um pagou-me a indicação do caminho com uma moeda do Sesquicentenário da Independência do Brasil. Deus me disse: "coitado." E deslocado do meu tempo acreditei que a moeda fosse medalha. Celebro hoje o sesquicentenário da passagem dele. Um vulto desaparece atrás de uma curva, todas as noites. Algumas presenças deixam esse tipo de resquício. Fantasmas passam e eu digo "ave."

Nenhum comentário: