sábado, 19 de fevereiro de 2011

Como Abraçar Abismos

Acontece uma, duas vezes. Na terceira você vislumbra o depois e acerta imediatamente quase todos os passos desta história. Parece que tudo é permeado pela mesma falta de graça ilógica das narrativas mais clichês; um começo um tanto complicado, em que as peças do jogo se apresentam em constante conflito e as identidades se deixam entrever sob uma névoa de ilusão e frequentemente, engano. O meio é onde os elementos conflitantes se chocam e as partes envolvidas se vêem refreadas pelos restos deles. O que sobra protagonizará o fim: claro e raso. O gran finale é tremendamente burro e previsível. Toda a boa ambiguidade das lutas e das tentativas vãs já foi rechaçada a essas alturas. O que fica é só a poeira indelével de um passado mal vivido chamando a atenção para um sonho de futuro limpo. Entre esses pólos, essa coisa movediça, morna e descartável chamada presente.

Está feita uma rotina de amores fracassados e esperanças que não se deveria ter. É tudo tão repleto da mesma essência medíocre, feita de egocentrismo e covardia. O nojo toma conta de mim, toma conta de um dia inteiro. Se arrasta até a noite macilenta da falta de sono e opaca de paredes que ostentam há anos a mesma cor de gosto duvidoso. Atinge a manhã próxima, começa a fazer parte da engrenagem empesteada de insignificâncias. Estou farto das coisas previsíveis. Estou farto do tédio produzido pelas explicações insatisfatórias, pelos rompimentos dramáticos, pela falta de graça inexplicável. Há mais que isso? Eu deveria me dobrar à uma aparente vontade divina, de desolação assentida e movimentos maquinais que conduzem às coisas mais óbvias? Até onde um lamento trêmulo e constante como uma vela de oração pode me levar em transcendência? Que armas busco, e onde as encontro, para me revoltar com sabedoria?

Eu quero um pouco mais do que o ordinário gasto e sujo que me acometeu todas as extremidades nos últimos tantos meses. Não que a vida me surpreenda. Isto seria aceitar mais um clichê, acreditar de novo em felicidades 35 mm. Não mais. Que a vida se faça absurdo e caos, e no meio disso uma colisão estrondosa produzindo frutos que não existem. Eu só quero o que não existe diante dos olhos. Meus olhos de dentro ultrapassaram os teus para ver em você o que não existe no mundo físico. Nunca vi aqui fora um lugar tão bonito. Eu te esperava há tanto tempo, e no entanto, estes meus olhos só souberam ser espelho. Você se viu mais bonito neles do que jamais seria em outros. Eu, uma hora me desgastei tanto do teu rosto que me desfiz em areia e vidro. E tudo isso foi há muito, muito tempo.

Encontrei esquecimento ou sossego? Olho para as pedras esperando ouvir nelas algum eco. Um reflexo de mim mesmo, quem sabe, a reverberar meu nome. O meu próprio rosto está agora entre as minhas mãos e penso: se eu beijá-lo, me apaixono. Então me afasto das pedras e me aproximo da água, morto de sede e cansaço. Ela não te reflete em matéria, mas ondula à menor brisa, do mesmo modo como a tua pele ondulava quando eu soprava. Sossego, eu acho. Sossego.

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