domingo, 13 de fevereiro de 2011

De Monstros Marinhos




Incômodos, inconformados, inconscientes e descomunais, seguimos.
Incômodos por valia e orgulho. Sim, nos divertimos com isso. Gostamos de ver nos rostos o incrédulo das percepções corriqueiras. Que horror que temos do ordinário, do rotineiro, do banal. Foi assim que nos perdemos do singelo. E nos perdendo do singelo, criamos vida. De monstros marinhos fellinianos em doces vidas escancarando o horror e a nocividade da vida do homem. Nossas vidas. Nosso horror diário e nossas falas nocivas uns aos outros e balsâmicas para os egos de nós mesmos. Que horror, que torpor. Que lindos e tristes nos tornamos. Tanta pena de mim mesmo e de vocês. Tanta inveja dos outros, quando eles encaram estas noites com tantos sonos tranquilos e expectativas vãs. Que doce deve ser ter expectativas de ter. Queremos ser e sofremos. Não somos tanta coisa desejada. Somos tanta insatisfação e lamúria. Estamos sempre entre o demasiado e o escasso. O esparso encerrado em nossas pequenezas, em nossas queixas ínfimas, infinitas, infames e inseparáveis de nós mesmos. Oito e oitenta, coito e poema. Dia e noite, sal de lágrima e de tequila. Prestamos honra ao descaso, mas jamais com desamor. Amamos tudo. Abnegadamente, até o osso. Até o grosso do semelhante, sempre tosco. Quase sempre, essencialmente, raso. Mas amamos. Até o fundo do poço. E é talvez por isso que odiamos despontecialidades. Despotencialidade é a qualidade dos resignados da vida em sujar de bosta o que têm de brilho. Escurecem até o âmago. E sim, só queremos lume. Luz. Fagulha, que seja. Menos que isso é desrespeito.
Inconformados, exatamente por isso. Pelo desperdício. De brilho encoberto. De bosta encobrindo brilho. 
Inconscientes. (aqui, uma pausa)
... Outra margarita. Outro cigarro. Um momento para o banheiro e para o espelho. Para tropeços e ensejos. De ser qualquer coisa além da sala e dos copos e da fumaça e do papo. Quase sono, vertigem, viagem. Descomunais. Desloco-me do espaço e do tempo. Eles se deslocam. Rimos trêmulos e trôpegos e já nem nos sabemos. Mas cresço, cresces, crisis, crescemos. Eu danço no quintal, eles se beijam. A vida nos veste de tempo e eu digo: que lindos! e eles riem como se sequer acreditassem. Em mim. Presencio o amor, ou a farsa do amor, ou a ilusão do, ou a existência do mesmo -curta ou perene. E enquanto me afasto, cresço. Enquanto me aproximo, cresço. Nos olhamos no olho, como ninguém mais olha: até cair bem dentro do olho do outro. E crescemos. Descomunalmente. Fomos nos embriagar, mais uma vez. E aí acabamos no tapete, luz de abajur, túnel de mente, correndo rápido, rodopiando, cabeça no chão, rodopiando, luz de fundo de túnel, rodopiando: ciclos, ciclos, ciclos: luzes, túneis, sonos. Depois sonhos. Que horror, que torpor. Clareza e tédio. Deus queira, não acordemos.


Imagem: La Dolce Vita, Federico Fellini

Nenhum comentário: