quinta-feira, 3 de março de 2011

Desdor

Hoje a memória veio com essa de me dar golpe inverso.
Fechei livro, andei pela casa, sentei-me na esquina.
Fiz esforço. 
A mente gasta começava a inventar desculpas,
querendo motivos pra desenhos e poemas.
Não havia nem um rastro de culpa.
A noite se anunciava linda 
e eu usava meu casaco novo pra me sentar na esquina.
Vou ao dentista, vou falar de filmes com Mariana, vou fazer matrícula.
Se eu morresse hoje, queria morrer em casa.
Mas não vou porque sinto pena de minha mãe.
Não vou porque amanhã tenho que ser feliz,
e o tempo é curto.
Dói ainda -ah, sim, o golpe inverso da memória
Mas essa dor que eu dizia é uma desdor.
A cada dia que passa alguém gentil me sopra no peito
(ou serei eu mesmo que o faço?)
do mesmo jeito que soprariam sobre os joelhos esfolados de uma criança.
E vai criando casca.
Do mesmo jeito.
Me machuquei um dia, e nem me lembro mais como.

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