sexta-feira, 4 de março de 2011

Fugas e Sonatas

Estava com um olhar de pêndulo sobre os sapatos desamarrados. 
Aproximei-me dele e até pensei "vou colocar a mão sobre o seu ombro", mas desisti como quem se aproxima muito do fogo. "É por isso que anda sozinho. As pessoas se queimam."
- Que se pasa?- indaguei com meu melhor sotaque bêbado.
- Perdi uma palavra por aqui.
Nem sequer levantou os olhos para mim. Continuava oscilando entre um sapato e outro, como se as rachaduras entremeadas no cimento da calçada possuíssem trilhas de mapa e ele quisesse localizar um caminho. Pensei que eu também sempre fui de procurar mapas nos cantos mais inusitados de uma cidade imensa ou entre entulhos insignificantes no mato. Mas tem muito tempo que não vejo o mato, só um mato metafórico que traz a voz de uma mãe morta lembrando o tempo de cortar a grama. Lapsos me cortam a memória entre frações ínfimas quando alguém me diz qualquer coisa. É por isso que me perco em desrraciocínios e minhas respostas às vezes demoram a encontrar formulação. Sacudi a cabeça num movimento quase imperceptível, mas eficaz para exortar a vagueza. As nuvenzinhas de passado se afastam como se Deus tivesse me soprado nos olhos com sua voz clássica grega: "O rapaz está no aguardo!" E a minha própria voz retorna antes do exato segundo em que o silêncio se faria constrangimento:
- Me aconteceu uma vez.
Só aí que ele levantou os olhos. Era como se um vento repentino aproximasse brasas em direção ao meu rosto.
- Você perdeu também?
- Três, de uma tacada. Três bem importantes.
Ele não perguntou quais. Não é estúpido, de olhar pra mim já sabe que estão perdidas ainda.
- Só perdi uma. Bem aqui. -voltou a olhar pra baixo- Se soltou assim...
- Você estava escrevendo ela?
Massas de nuvens em sépia retornam sorrateiras. Eu mesmo as desenhei em giz pastel um dia. Naquele dia em que deixei ir embora as minhas três palavras. Porque eu perdi, mas a culpa é minha. (nem sempre a gente é merecedor delas). 
- Ia dizê-la.
Ia dizer a ele que não se alarmasse, que às vezes é melhor nos livrarmos de algumas palavras (bonitas ou fortes) porque outras mais esclarecidas só nascem do esforço provocado pelo esquecimento.
- Havia outras segurando ela pela mão? Vieram outras no encalço dela?
Estava curioso porque no meu caso não sobrara nenhuma.
- Veio sozinha e se foi. Só me lembro que era trêmula e inquieta como um vaga-lume. 
Senti que ele esperava anoitecer para que talvez ela retornasse vagalúmica. Nesse pensamento uma das minhas palavras perdidas passou como um vulto de vento e fiz com a mão um movimento de captura. Mas era tarde demais. Ele entendeu que eu lhe estendia os meus dedos e meio tímido, segurou uns três, sem saber direito o que fazer com eles. Nos olhamos surpresos como se uma palavra nova tivesse nascido bem ali, diante de nós, e apertamos os dedos um do outro para que ela não escapasse. Não quis soltar porque a queria minha. Ele não soltava porque compartilhava o desejo. Queimava mesmo. Tive medo, mas não quis desistir da palavra. Vou usar de astúcia. 
- Sua palavra!
Apontei para os sapatos onde o olhar dele andara pendulando quando o encontrei. Ele estendeu olhar e mãos para o vazio e quando levantou de novo o rosto, eu já saíra correndo. Só bem longe que fui olhar para a palavra. Eram apenas três pontos meio apagados. Se dissolveram rapidamente antes que eu pudesse usá-los para qualquer coisa. É a natureza das reticências. Compreendi que o acaso só me dava sentenças soltas, e que se Deus ou o Destino me falavam claro, era a minha percepção das coisas que se anuviava em vaguezas.
Corri o mesmo caminho, de volta, como se riscasse no asfalto com um giz sépia as linhas de um mapa. Até ele. Mas já não estava lá. Pensei que deveríamos ter dividido os três pontos. Um para ele, um na minha mão, outro pra que nós dois cortássemos ao meio e inventássemos juntos uma finalidade. Queria ter dito: não se preocupe com o que está perdido. É melhor que se invente o novo. Sentei ali onde o encontrara e olhei pra baixo com um olhar de pêndulo sobre os meus sapatos. Sentia frio, e vinha de mim. É por isso que eu tenho andado sozinho. 

2 comentários:

Raíssa Abreu disse...

No meu caso, quando elas somem levam todas as amiguinhas e me deixam sem ar. Por isso sou péssima com improvisações. Daí, em certas situações práticas, sou obrigada a aprisionar as palavras (o horror!). Elas perdem a vida, mas pelo menos não fogem.
É a esse tipo de prática que eu preciso renunciar, sob pena de morte (minha).

Tales Gubes disse...

Moço, moço, moço... mundo pequeno de fato, agora que estamos conectados não apenas na blogosfera, mas também na lattesfera =D