quarta-feira, 23 de março de 2011

A Memória Gesta

Acordou como quem não sabe a casa.
Eram poucos os cômodos.
Mas claros.
Tateou na luz para poder enxergar
O que tinham de escuro.
Nada.
E assim,
Aquela vida avançou ferida
Para fora do quarto que lhe cortara.
Aos poucos os pontos se fecharam
Porque sim, eles costuraram
Com o que tinham, costuraram
Cordas de tripas e de violinos
(nunca soube o que era mais lindo)
E com as vísceras atadas
Ateou fogo às cartas
Na entrada da casa.
Que casa, que nada
Prisão de luz,
Irmanada com o Engano.
Enfrentou a estradinha de terra
Que dava para a noite
“Eu quero esse escuro
E uma lanterna antiga
Como aquela que vi
Numa carta do Eremita”
De vez em quando ainda escorre da barriga
Aquele pouco de sangue
Mas não é nada que não estanque,
Com chumaços de pasto
Ou farrapos de camisa.
(não fica bem nua, mas tem o direito de gostar da brisa)
E espantalho de velhos amores
Segue mítica um ritmo torto
Magreza de morto, mas tão viva quanto um elefante
Raquítica, mas não como antes:
o ventre agora intumescido
(de vento, de torpor, de amante
em gestação)
E o que falarão na cidade
Quando ela chegar
Despojada dos diamantes
Para adentrar nas casas?
“Fica de fora, filha”
“Contempla as luzes, sente frio”
Ela vai sentar no meio fio
E esperar catástrofes.
(catástrofes sempre têm luzes)
E depois escuros
Lindos,
Lindos.

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