terça-feira, 29 de março de 2011

Os Outros Se Apagaram No Meio Da Noite



Os outros me apagam no meio da noite, antes do fim. Vejo séquitos de esperas e abandonos transitando pelas esferas do meu quarto, e de aguardo em aguardo, baixo a guarda, olhar grave sobre as poltronas vazias onde horas antes havia colo e proteção. Mas tu. Tu não. Meu olhar se avizinha com o teu mesmo de longe, quando te vejo descendo a rua para fora de mim, e me pergunto quando de novo, e me pergunto se forte, e aonde, se posso ser em descaminho, que é sempre essa ida de volta, sozinho, para a casa minha. Se posso ser qualquer coisa distante dessas bordas; beiras de esquecimento por onde circulo sonâmbulo, onde alimento medos e desproporções. Mas não. Desta vez retorno para meus cantos e miudezas queridas, encerrado em mim mesmo como se fosse um abraço, e ainda assim, és tu. És tu quem me abraça. Me envolvo os ombros de presença, mesmo quando não existem nem rastros físicos daquele corpo. A memória de cheiros e toques e palavras gravadas como com goivas e gozos. Raivas que se emudecem e depois de bem tragadas se desintegram em fumaça rumo às janelas abertas. E eu virei aquele das janelas. Transmutação, não. Movimento. Força de impulsionar o corpo para frente, mas proteção de parapeito toda a vez que me apertas contra o peito e eu me aproximo de um abismo que nunca é de cair, mas de planar. Das janelas, me lanço. Quintessência viajando pela noite até a janela do teu quarto. Qualquer fresta, eu entro. Qualquer coisa bem trancada. Não existe nenhuma chave-tetra que me deixe do lado de fora, na noite aberta –a não ser a tua palavra, dolorosa e discreta, quando me afastas e vou para casa e conto as horas e conto quantas músicas de Blossom Dearie me faltam para ser resto de parafina. Meia-luz, meio aflito, mas o coração no meio-dia, que é quando mudo o humor e meço o descabimento de não ser feliz e estar sendo. E te vejo.

Imagem: Happy Together, 1997- Wong Kar-Wai

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