sexta-feira, 22 de abril de 2011

Indigesto Irrecusável

Estremeço porque é o fruto de hoje que me apodrece dentro.
Leva tempo, eu sei, para que essas coisas ruminantes
Encontrem decomposição e fenecimento.
Mas seria mais fácil olhar o alimento
Com um olho interno que me dissesse:
Vai, recusa.
É doce, mas é desuso querê-lo.
Há vômitos à espreita.
Há dores lancinantes
A impedir o sono da semana que vem
A proclamar o trauma da próxima década
E a cavar as rugas a serem irrigadas com uma
Ou outra lágrima mal-quista.
Mas nunca quis ser faquir de amores
Ou desejos.
Ainda que os risos me rasguem a garganta
E me façam cair os dentes
Vou ser fremente em alegria agônica
Vou entupir as artérias
Dessa gordura nociva da vida.
Me escorrem da boca veneno e sumo
Eu ressorvo na noite, em largos goles, esperança
E os abandonos, em densos tragos, eu fumo.

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