terça-feira, 10 de maio de 2011

(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 1: Prelúdios



Prelúdios

Agora começa. Ou começou bem antes, não sei. Só sei que veio como uma urgência que não é bem de voracidade ou expurgação. Estou prestes a devolver ao verbo, com a intensidade máxima que o meu desejo e amor permitam, o que o verbo tem me oferecido. Para tanto, é preciso voltar aos tempos já enevoados dos primeiros anos, aos lugares que desbotaram na memória como as fotografias que minha mãe ainda guarda nos álbuns de família. Mas eu dizia das urgências, desse começo onde me proponho a rondar o verbo e encontrar maneiras de me aproximar/apropriar dele, envolvê-lo, lambê-lo com uma língua suficientemente úmida e cálida, e às vezes àspera e cortante, para que ele se amolde a esse vir-a-ser que é para mim o melhor da arte. Sempre depois do olhar, é o que interessa. Sempre depois de ler. É o que se rumina num banquete de palavras ou sons ou imagens, é o que se vomita, é o que se adoece, é o que se engravida que me interessa.

Ainda não sei se vou conseguir, e isto me aflige. Já disse: não é expurgação. Preciso falar da minha relação com as palavras: já pratiquei exorcismos pela urgência em vomitar toda vez que um bolo de palavras me revoltava o estômago e me sufocava a garganta. Parecia-me sensato libertar-me do verbo quando ele crescia em tal medida até não me caber mais. Até me sair pelos buracos como as avencas do conto de Caio F. Em certas vezes, expelir esses filhos era exatamente dar à luz, recuperar-se do parto, preparar-se para a próxima gestação, cuidar dos que já tinham nascido, saber que um dia eu morreria, e melhor que fosse antes deles. Mas em outras, tantas outras, cometi abortos premeditados. Os natimortos não foram dados à luz, é fato: mas ao escuro, e é como se tivesse dado ao escuro uma seiva, que eu aguardo seu desenvolvimento atrofiado; anomalias congênitas das mais diversas se instaurando, até o momento -que há de chegar, eu sei- em que eles voltarão para mim, e, mortos-vivos, aleijados e feios, reclamarão descendência. Tal qual Equidna, que, na mitologia grega, por sua sina de habitar profundezas, foi a mãe de todos os monstros, deu ao escuro, e não à luz, a Hydra de Lerna, cujas cabeças, se decepadas, regeneravam-se em duas. Eu mesmo já cometi o erro de iniciar este tipo de luta vã, e ao ceifar umas tantas cabeças de monstro, dei vida a tantas outras. Elas me perseguem agora, agora que já não cometo infanticídio de palavra alguma, e aceitei a sina.

Urgência. Não sei bem quando se iniciou o processo, mas sei que me veio místico, como um desejo que é quase o de redenção: ofertar, cultuar, adorar o deus do verbo. Prestar um tributo que se constitua em lançar filhos híbridos para o sacrifício. Para tanto, este diário faz as vezes de pedra ritual. Se a palavra me trouxe alívio e dor na mesma medida, é na mesma medida que pretendo devolver a um universo de profundezas, aquele do Outro que lê e vê, e também aquele metafísico, que não se encerra em nenhuma grade de alma ou de matéria, peso e leveza, tranquilidade e torpor.

Iniciei dizendo que se faz urgente a criação. Uma cosmogonia estranha começa agora, e são as estranhezas que persigo, nestes meus (pre) textos para imagens (in) ternas. É preciso, antes de tudo, retroceder, ir colher no tempo uma história, arrancar pelas raízes certas imagens, pelos cabelos umas tantas, enfiar um gancho firme no plexo de outras, e trazê-las à tona, pela mão da palavra.

As primeiras foram arrancadas como corais há séculos grudados no casco de um navio naufragado. Eu ainda não era eu e já existia no mundo. Aquela criança me volta em decomposição. Deito a criança sobre a pedra ritual. As urnas canópicas estão prontas. Vinho de tâmara, cristais de sal, linho. Incensos, óleos de mirra e nardo. E uma estátua para abrigar o ka. Corto, abro, mutilo e costuro a criança. Preparo a eternidade dela. A partir de agora.

Imagem: (Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas, Prelúdios; páginas 13 e 14- Léo Tavares

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