sexta-feira, 27 de maio de 2011

(Pre) Textos Para Imagens (In) Ternas # 2: Bilhete Urgente







Me salva no dia sete de setembro de 1984, ao meio dia e dez em ponto, naquele prédio grande que tem uma cúpula, e uma santa na cúpula com aquele menino no colo. Está tudo pintado de bege e eu acho muito triste.  A construção deve ter dois séculos e é de uma beleza cemiteriana. Ando tão aflito que me ponho a inventar palavras. Fizeram estranhas e altas, as janelas. O sol não entra o dia todo e os corredores têm o cheiro do suor doente dos velhos. Vem logo, que a viagem é longa e eu tenho medo.  Num hospital não quero. Não nesse, já disse, mortificado, pintado de bege. Apressa. 

PS: Depois passaremos a tarde assombrando os pássaros à beira do rio. Eles voarão sobre os casais que não nos podem ver. Riremos muito quando os vestidos das moças se alvoroçarem e elas não souberem por quê. De noite eu te beijo e te abraço dentro da água, lá no fundo, quarenta metros abaixo. Jamais ficaremos roxos como estes estranhos nas gavetas do hospital. O fundo do rio é morno, e os peixes atravessam nossos corações o tempo todo. Estamos tão mortos que não sentimos nada.

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