sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Imo

Para P.


E foi que me doíam aquelas felicidades estranhas que, uma vez conquistadas tratam de hastear uma flâmula de incerteza e receio por cada território onde vicejam e fazem graça. Tal qual um rapsodo que passa pela cidade e ilumina um lugar e seu povo antes de partir para outro. E se ele retorna, depois que passa, as luzes das casas tilintam de novo com o mesmo frêmito de um primeiro poema?

De presenças, só sei saudades. Mesmo quando ele recita e o lume do verso me chispa o rosto na noite escura, é de saudades que me silencio e me abrevio. O depois engole a voz e com as cordas da voz o depois me enforca; o depois engole a casa e as luzes da casa o depois apaga. E atinge então a encosta, e a estrada. De perenidades, estradas.

Mas não se cala o verso a mim consagrado. Há que se memorizar cada letra, cada traço de voz que me risca o ouvido e me forma em sentido. Juntei-me de sentidos, quando ele veio. Cacos tantos, de incoerências fartas. Rapsodo do depois, me fica nas veias até seu emudecer e seu próximo passo para além da cidade. E a cidade volta a desconhecer luz e o verbo tilintar então só serve para copos e colheres alanhando rotina e vaziez.

Ele canta epopeias, eu relembro causos. Ele ressignifica meus sentidos e eu rezo permanência e exaurimento. Que se canse de vislumbrar cidades além da cidade onde seus pés raízam. Firmes, raízem, eu rezo. E me permito estranhezas de felicidades, temerosas alegrias, medos descompassados de fenecimento quando a sombra da mó assoma sobre trigos e joios.

O tempo me arranha os dentes e os ossos, e os versos prosseguem tanto quanto nos esquecemos da estrada e das outras cidades além da estrada. Tranquilidade só mesmo se eu fosse uma ilha. Vim a ser ilharga que o remanso ataca com gentileza e tepidez, pois é de ardil e de chasco a natureza das enseadas.

E me mantenho pétreo durante o dia; vítreo ao longo da noite. Erigido sobre uma canção da qual ninguém na cidade recorda direito: um navio naufragado que só relata suas travessias antigas a corais e cardumes. Crepuscular então, quando vitral perpassado pela voz de um bardo.

A noite dissipa as luzes quando dormimos. Eu me dispo de desconfianças e amuos, porque me acostumo até quando o canto está suspenso. (ressoa)

E foi que me doíam de propósito todas as coisas a que o tempo arrancava cores e cascas. Primeiro, em fuga precipitada. Agora, em consciência esperançosa. Destas a que o próprio bom senso se encarrega de fazer troça, mas que são resistentes a descrenças e gargalhadas.

O dia nos vira as costas e nos viramos na cama, um para o outro, norte e norte, leste de bruma amanhecendo vicissitudes e viscos. Ressoa, rapsódia inconstante e custosa: a volatilidade assombrada de certas coisas douradas, que ao golpe mais frágil deixam escapar tonalidades invisíveis desse mesmo ouro, em vibrações metálicas. Sinos que dobram em som, mas jamais em forma. Auras cuja volição secreta é o escuro, irrealizável e ainda mais leve. Ressonar que tremula não porque hesita, mas porque fulgura. Obstinação e permanência sobre os nossos ombros. Fica e trabalha. Depois da lida, o canto de ontem ilumina a casa, e os versos povoam o descanso compartilhado entre coseduras e desfiamentos de um impossível sudário.

Imagem: Sem Título- pastel seco sobre cartão- 2009- Léo Tavares

Um comentário:

Fabi disse...

Nossa! Perdi o folego! lindo, lindo, lindo! (Suspiros de identificação)