terça-feira, 24 de setembro de 2013

Precipitação Pluviométrica


Veio a chuva e seu contrassenso era o peso que nos envergava o corpo e encharcava as roupas, ao passo que lavava embora o que não era mais novo. Flertei com a leveza por muito tempo. Depois, durante eras, fui magnetizado por um ideal que era mais barro, mais barroco. A tal ponto que a minha vida enrijeceu-se num recostar-se ornado, em sacadas e átrios, algo trágico, desprovido de volatilidade, propício ao restauro e encoberto de sombra.
Atravessei a plataforma da espera, hoje, de onde vi, do alto, um cachorro correndo por entre os carros. Um breve momento, como num jogo, em que o lance de dados se faz errado, e ele teria interrompido abrupto no meu olhar o seu lastro. Mas era eu quem olhava do alto. Do perigo da queda, do alto da minha humanidade machucada, o seu desapegar-se, a sua comunhão não logicizada com o acaso.
Não quero mais pórtico, nem balaústre, nem altura que me ultrapasse. Algum aroma de terra e água se uniu a outros, antes imiscíveis, e foi assim que me senti um pouco dionisíaco, de tepidez e desalinho. As narinas buscando epifanias ferrosas. Sangue e charco. O estertor de Deus depositou sobre nós sua bendita raiva. O céu agora descortina um outro dourado, mais de grito do que de cor, e as alamandas que nunca plantei aqui em casa emaranham-se e crescem, e um dia irão estourar as janelas.

Imagem: Delphine Courtillot - The Lights. Gouache on paper. 127 x 97 cm. 2005.

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