segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Erebotrópio


Olhei para dentro do quarto de soslaio: um sol esparramando seu lastro sobre as coisas escurecidas de um abandono temporário. As duas malas fechadas, num canto, e as roupas desalinhadas, descoloridas de tempo e de estado de espírito. Sentei-me à beira da cama, olhei os livros, as cortinas sujas querendo dar lugar à paisagem.
Não cedi ao apelo das coisas mudas. Para os quadros na parede desejei abalos sísmicos. Com os vidros, faria mosaicos no chão, ou cortes na pele? O papel iniciaria incêndios de ordem piromaníaca e de outra, mais invisível, não menos abrasiva. Dentro do fogo eu olharia em clarividência o porvir-ruína deste cômodo, e talvez, das centelhas derradeiras, uma salamandra me indicaria direções insuspeitas em minha vida.
Os livros todos vibram, e só não se lançam das prateleiras porque são dotados de paciência. Sabem de seu destino mais do que todo o resto destas coisas famintas. Eles esperam a retirada extrema, que antevê o caminho de uma valise ou de uma caixa. Os mais ávidos por atenção estendem os corpos em direção às malas; os que estão cansados querem se entregar ao conforto do escuro, e eu diria que até mesmo anseiam por corrosão e mofo.
Olho para o conjunto deles e nem os que já foram amados se salvam. Tudo aqui dentro se configura como força catalisadora dos fragmentos do que fui antes. Os lençóis denunciam frêmitos passados, restos de oração. Os pesadelos espiam enfileirados atrás da porta, e permanecerão à espreita, mesmo quando minha mãe entrar, num domingo à noite, para confirmar que não estou em casa.
Mas não sou impassível ao desamparo. Se falo de aniquilamento é porque o abandono temporário é maior fardo. Escolho a partida que não prevê regresso, a cisão abrupta ao desenrolar gradativo de um nó.
Tenho no quarto duas malas fechadas, mas não planejo viagem. Ironia cósmica que pode significar um convite à errância ou aquiescência à morosidade e à espera. Heliotrópio das esperas, uma vez. Agora se anuncia uma imagem diversa: sonolência a forçar passagem pela minha vontade. Tornei-me propício a um adormecer coagido, entre panos gastos e quadros quebrados. Uma flor que se volta ao escuro, e persegue o breu e o silêncio, sempre voraz pelo que não tem imagem, nem fundo, nem rastro.

Imagem: Francesca Woodman, House #4, Providence, Rhode Island, 1976; gelatin silver print; 14.6 x 14.6 cm.

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