quarta-feira, 7 de maio de 2014

Miragem



Era uma terra amarela, e quando se olhava adiante, perdiam-se de vista os sulcos profundos que sepultavam relâmpagos na linha do horizonte. A casa tinha um alpendre que fazia as vezes de proa, porque o que se olhava já não era mais a paisagem. Era um além do leste, onde, imaginavam, abria-se o mar. Nos fins de tarde, quando chovia, um cheiro salgado trazia às janelas uma confirmação de existência, e a vida seguia mítica, latejando prospectivas de viagens.Não se sabe ao certo se algum dia partiram. Durante muito tempo só se ouvia nas redondezas um uivo de cão que competia com o vento. Amarrado à única árvore, com uma corda de um metro e meio, também o tivera, em seus primeiros anos, delírios de oceano. Depois de eras inteiras em que o céu engolia os peixes que a fome dos olhos fecundava, o esquecimento do sonho apaziguou um dia o anseio de alimentos quiméricos.O tempo roía o ventre fundo e seco e também roera as vísceras que há tanto o ligavam à árvore, mas ele jamais se moveu além da área uma vez delimitada pelo repuxar da corda. De fato, sempre que avançava um pouco mais do que seus passos rotineiros, algo invisível o impedia de seguir adiante, e o catapultava de volta, como se estivesse encantado.Atrás da árvore, a casa virara ruína, depois amontoado de pedregulhos, depois mato. Não sobrou nada dos muros adiante, nem do caminho que serpenteava entre os veios em direção à cidade, nem a cidade. A árvore permanecia lá, retorcida como uma rachadura no fim do mundo, e o cão esperava, sob uma sombra fantasmagórica, que o mar invadisse o horizonte e depois as serras, arrebentando pedras e murmurando os nomes das coisas que ainda não foram fundadas.
Imagem: Iberê Camargo. No Vento e na Terra II (1982) - Coleção Iberê Camargo