quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O Tempo dos Parapeitos




É preciso correr. É preciso escrever. É preciso concluir. Criar. É preciso. Arrebentar a redoma da hesitação, romper a casca do tédio, da morosidade e da distração, chutar o invólucro do cansaço e da vontade de desistência. Produzir, produzir, contribuir. Ajustar-se ao tempo. Ao tempo dos outros. Tempo institucionalizado, contabilizado, comprimido, entregue a nós como opção única, incontestável, ameaça mascarada de oferta, imposição fantasiada de convite. Aceitamos, preenchemos obedientes a carta de aceite do Tempo Unilateral que não foi por nós medido, preenchemos com pressa a carta, olha só, já adiantamos a lição de casa, estamos afinados com a regra, seremos utilitários, seremos agraciados com a dádiva da eficiência, estaremos em sintonia com o bom funcionamento das coisas, faremos parte da lógica, teremos nossa fatia do bolo. Engolido a seco, pois há urgência, há urgência de tudo, e qualquer atraso nos catapulta de volta para o fim da fila.

Olho com sede para o papel em branco, olho para o relógio, certifico-me da passagem absurda, sofro porque não há volta, nunca há volta para um segundo perdido, é necessário, é necessário, é necessário. O papel em branco sequer é papel. O processador de texto quer me engolir, dizer alguma coisa paranoica e ameaçadora como as máquinas de Burroughs, o pavor do branco começa a tomar conta da minha tarde, uma luz que cega no fim do túnel, esta direção profunda a nos indicar onde não chegamos nunca, e tenho pressa de chegar, tenho que ter pressa de chegar e finalmente agora, quase catatônico, e quase morto de vontade e de incapacidades (tantas, tantas), finalmente agora atiro para longe o relógio imaginário da produtividade e percebendo, depois de muito tempo, que respiro, crio coragem para me fazer a pergunta:

Chegar aonde, meu Deus?

Então aos poucos me desacelero e me desafogo, deixo pender dos ombros os fios que me ligavam a um gráfico monumental de responsabilidades, construído com afinco por mim mesmo, emaranhado voraz conectando tantos pontos a ponto de ter se tornado ininteligível. Vou para a sacada, é um lugar de lufadas, o desanuvio se instaura. Agora que percebi que respiro, rasguei o contrato, assumi o parapeito como vanguarda. É preciso olhar as coisas, o clichê inadiável que esteve sempre ensurdecido pela convenção das horas. Eu me permito o clichê, eu desisto das obrigações de originalidade, recuso o impecável, assumo um desejo imenso de falibilidade. O clichê vem me dar tapinhas no ombro, com a voz sedutora que os clichês têm ele me diz: escreva aí: é preciso olhar as coisas. Então eu olho, e o branco se dessacraliza e se dispersa pelo simples truque de fechar os olhos, pelo simples gesto de descer a tela, pela pressa – não, pela vontade expressa de me resguardar de culpas e desassossegos. E não escrevo mais, por hoje.

Recuso constrições reguladoras, inspiro fundo uma possibilidade de plenitude, mesmo em queda livre. Arquiteto um hoje que tem quarenta e oito horas, depois expando o meu hoje para setenta e duas e acordo para um amanhã de cinco minutos. Saio pela porta disposto a desafiar o tempo. O escândalo de se permitir uma vida menos onomatopaica, mais estática, silenciada. Dou de ombros, porque de repente os olhos dos outros deixaram de ser semáforos.

Transito, escrevo em pensamento, é preciso escrever. Inventar um tempo, é preciso. Espero. Adentro a página, não tenho ainda quase nada a dizer. Aguardo. Se não vier amanhã, melhor. Condenso ausências, e, de falta em falta, uma hora desabo. Vou chover em breve, aguardo.


Imagem: Trabalho da artista Yasmin Adorno, parte de uma série em processo. Clique sobre a imagem para visualizá-lo melhor.

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